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quarta-feira, 29 de outubro de 2008

"Desmistificar a cultura"




Companhia Paulo Ribeiro

O problema do teatro é nacional e está na "tutela", pois há uma grande falta de "estratégia" nesta área e o país precisa de ter à frente das responsabilidades políticas pessoas "fortes, abertas e interessantes". Na opinião do coreógrafo Paulo Ribeiro, a estratégia de cultura para o país deveria ser muito mais "consequente e forte, mais ligada à educação e muito menos preconceituosa". Mas Portugal tem ministros que vão para o poder e "não fazem a mínima ideia do que vão fazer, acabando por se acomodar a cargos de prestígio sem qualquer tipo de sentido de missão e sem qualquer acção realmente interessante". Nas escolas, há "imenso" a fazer, como um "desmistificar" da cultura, que não se destina apenas a uma minoria, sendo sim parte integrante da educação.

A história de um casal com uma boa dose de ironia e humor à mistura e; um solo que leva a palco 10 personagens; são as propostas de Paulo Ribeiro e da sua companhia, que actua hoje e amanhã no teatro micaelense com "Malgré Nous, Nous Étions Là" e Noite de Reis", respectivamente.
Paulo Ribeiro, actor, bailarino e coreógrafo, explica ter sido uma "coincidência" enveredar pelo teatro, pois pertencia a uma geração em que era "complicado" haver rapazes nesta área e teve uma educação "normal e conservadora". Antes de ir para a universidade, até foi "judoca" de alta competição. Acabou por ir com os pais para o Brasil em 1965, por razões económicas, onde começou a frequentar a Faculdade de Psicologia, que entretanto não lhe agradou. "O meu pai achou que Portugal estava um caos e partimos"- acrescenta.
Depois foi para Bruxelas, onde conheceu uma bailarina e começou a ter aulas de dança, descobrindo que era neste campo que pretendia ir mais longe, mas confessa que "nunca "pensou que se podia tornar coreógrafo. Foi um grande desafio ser intérprete, dançar e trabalhar em várias companhias, reconhece, mas o facto é que Paulo Ribeiro acabou por ter um percurso "interessante" como intérprete, o que o levou mais tarde à coreografia. Segundo o coreógrafo, foi uma vida de "felizes acidentes", que se desenhou a si própria, o que é muito "engraçado".
Trabalhou como coreógrafo na Gulbenkian e nas maiores companhias europeias, mas admite ser um trabalho muito diferente. "Chegamos, montamos a obra, mas não a acompanhamos. É um trabalho de stress e eu queria realmente ter um tecto, onde pudesse desenvolver uma relação de cumplicidade mesmo consequente, no sentido de nos conhecermos e desenvolver uma linguagem e um trabalho muito diferente do que apenas a montagem de uma peça".
A companhia nasceu em 1985 em acção conjunta com Abílio Moura, o produtor do grupo desde o início, e teve um início "brilhante", pois a primeira peça foi logo, recorda, um "enorme sucesso", o que levou a inúmeras digressões pelo mundo inteiro. A segunda peça esteve em concursos de Bailaré, que "estão para a dança como o Festival de Cannes está para o cinema", e a companhia tornou-se a "primeira" (companhia) residente de um teatro no interior do país.
Paulo Ribeiro, Leonor Keil e Abílio Moura (na produção) são os três elementos fixos da companhia, pois em Portugal, lamenta, "não há meios para ter uma equipa fixa o ano inteiro, a não ser a companhia nacional”. Isso faz com que as pessoas funcionem "por projecto" e quando tem uma peça em mãos passam a 7/ 8 membros ou até 10.
Referindo-se às peças, Paulo Ribeiro avança que o "Malgré Nous, Nous Etions là" é interpretado em dueto com Leonor Keil e é um pouco "extemporâneo", pois, confessa, há muito tempo que não dançava.
"O importante é que as pessoas se sintam tocadas por este dueto e vibrem, pois a maior parte dos portugueses sabe que somos um casal e sabe da nossa história em comum, o que transparece muito no dueto, que é muito tocante"- revela, avançando que este possui uma dimensão "poética e romântica muito forte".
O coreógrafo conta também que quando actuaram em França e, mais recentemente na Croácia, tiveram o teatro "cheio" logo no primeiro e segundo dia e "todos de pé" no final. O que talvez se deva ao facto desta estabelecer um "magnetismo e uma química muito forte" com o público.
E enquanto Leonor Keil pretendia uma peça sobre o amor, relata, Paulo Ribeiro estava mais inclinado para temas mais "prementes" do dia-a-dia. A peça acaba por ser uma mistura de ambas as partes e possui uma dose de ironia "muito grande". A peça tem "imensa ironia e humor ao mesmo tempo", talvez por isso as pessoas não fiquem "indiferentes", ressalva, mas "muito tocadas e sensibilizadas".
Em relação à "Noite de Reis", esta é interpretada por Leonor Keil a solo com encenação do encenador londrino John Mowat, um homem que considera ter "imensos recursos e um sentido de humor muito acutilante e muito forte". Trata-se de uma obra muito "interessante e madura", que teve um enorme sucesso num festival em Portalegre, no sul do Brasil, e na qual Leonor Keil consegue, através do teatro e da dança, interpretar 10 personagens.
Na sua opinião, tanto uma peça como a outra são um pouco "incontornáveis" no percurso da companhia, além de outras peças que também funcionam "muito bem" e que afirma ter muita pena de não trazer aos Açores, como "Masculini" e "Feminini". Estas são duas peças que giram à volta de Fernando Pessoa, "como pessoa", e destinam-se ao público masculino e feminino, respectivamente.
Mas o que importa é "estabelecer pontos entre o continente e as ilhas"- esclarece, avançando que na dança contemporânea há sempre um "preconceito" em relação ao seu elitismo", o que é "completamente falso". Isto, porque há uma dança contemporânea que é realmente "hermética".
"É como se disséssemos que todos os pintores só pintam quadros brancos. Não, há pintores que pintam azul e são pintores contemporâneos"- enfatiza. O pior é que este elitismo "assusta" muitas vezes os programadores do teatro e mais ainda o público, mas felizmente está a ser "ultrapassado" aos poucos. Situação que espera que "evolua" rapidamente, para que peças e autores portugueses possam "circular" um bocadinho mais.
Quanto às sensações de pisar um palco, afirma "não" saber quais são, contrapondo que o faz há 30 anos e cada vez é como se fosse a "primeira". Sabe apenas ter uma relação muito "difícil e doentia" com o palco, ficando sempre muito "mal disposto" antes de pisar palco, tal como quando participava nas grandes competições de judo.
"O 'antes' é realmente um nervosismo terrível, que nos altera mesmo em termos biológicos, mas quando entramos em acção o nervosismo passa"- enfatiza.
Referindo-se à situação do teatro em Portugal, o coreógrafo e actor avança que o problema do teatro é o problema do país. "É algo que se passa em torno do país e sobretudo na cultura, na tutela", pois há uma grande falta de "estratégia"nesta área. Dai a necessidade do país ter à frente das responsabilidades políticas pessoas "fortes, um pouco mais dizimarias, abertas e interessantes".
Diz não se referir apenas ao teatro, mas à cultura em geral, porque cada vez mais as 'coisas' são "transversais" e não se pode falar de teatro sem falar de dança, música, cinema ou arquitectura, pois está tudo "interligado".
"A estratégia de cultura para o país deveria ser muito mais consequente e forte, mais ligada à educação e muito menos preconceituosa"- enfatiza, acrescentando existir um conjunto de elementos realmente "civilizacionais" que têm de ser realmente "inteirados e pensados de outra forma". Em crítica aberta ao governo central, Paulo Ribeiro vai ainda mais longe ao afirmar que "muitas vezes temos ministros que vão para o poder e não fazem a mínima ideia do que vão fazer, acabando por se acomodar a cargos de prestígio sem qualquer tipo de sentido de missão e sem qualquer acção realmente interessante".
Na sua opinião, o grande problema reside, na maior parte das vezes, numa espécie de "oportunismo político e mediático em relação a pessoas que ocupam cargos que, se largassem de ano para ano e fossem um bocadinho mais honestos, não aceitariam, porque não têm capacidades para o fazer".
Quanto ao que poderia ser feito para melhorar este quadro, o coreógrafo argumenta que a solução seja "talvez um estágio intensivo com Manuel Maria Carrilho". Politico que ainda hoje é defendido por "todos, mesmo as poucas pessoas que o criticaram e estiveram contra a sua política". A seu ver, este foi "incontestavelmente" o ministro que teve "algum sentido de missão e um projecto consistente" para a cultura. A partir daí, foi "sempre um descalabro terrível".
Afirma preocupar-se mais com o futuro do que com o presente, mas o importante é "criar gerações para o futuro um bocadinho mais interessantes", do que as actuais. Referindo-se às escolas, o dançarino argumenta que há "imenso" a fazer, lembrando que em Viseu a companhia desenvolve bastante trabalho junto das escolas, no sentido de "sensibilizar" e de ensinar a construir uma peça em "acção conjunta com professores e alunos que interagem com encenadores, cenógrafos e músicos".
"Há um trabalho muito grande em relação às escolas que tem a ver com o desmistificar a cultura. Esta não é para uma minoria de pessoas mais ou menos descabeladas, mais excêntricas e tem realmente de ser percebida como algo que nos torne mais aptos a perceber, a pensar o mundo e a resolver, logo é parte integrante da educação, da curiosidade e da vontade de ir mais longe e de adquirir conhecimentos"- acentua.
Felizmente, é raro nos dias de hoje existir um teatro ou câmara que não tenha um "serviço educativo", pois estes serviços vão muito no sentido de "cruzar a cultura com a educação" de forma mais ou menos "consequente e criativa". E é este o caminho que tem de ser "explorado". Mas, lamenta, a "vontade política" em relação a estas coisas muitas vezes é "ténue" e, actualmente, não podemos só "imputar" vontade política aos políticos.
A seu ver, a tutela deve ter uma visão "alargada, concertada e estratégica" em relação ao país na sua totalidade. Esta visão também se aplica à banca e as empresas, que deviam ter um olhar para a cultura um bocadinho "mais consequente do que as celebrações pimba". Isto, apesar de o país estar a passar por um momento "difícil" a este nível. Ter "imensos tiques de novo 'riquismo' e de cultura pimba" é, na sua opinião, o grande problema de Portugal.
A população, por sua vez, "aprecia" o teatro e dá-lhe o devido valor. Aliás, esta está "cada vez mais virada para o teatro", até mesmo nos meios rurais. Segundo Paulo Ribeiro, o teatro Viriato está a "despontar" cada vez mais graças à cidade, mas também aos jovens e às pessoas dos arredores da cidade. Estas últimas, salienta, mesmo não oferecendo uma cultura muito "trabalhada", são cada vez mais "curiosas" e sabem "apreciar" e/ou; "denunciar" um espectáculo, um pouco mais "fraco", tanto em termos comerciais como conceptuais.
Paulo Ribeiro salienta ainda que "o sector cultural tem um grande peso no PIB português e europeu", porque ao associar todos os serviços ligados à cultura e as várias carreiras e profissões à volta, percebe-se "facilmente" que isto de repente gera "riqueza" de uma maneira muito "forte". Aliás, ressalva, segundo um estudo de 2007 ou 2006, existem números "espantosos", em relação a esta questão da riqueza e da "cultura" em geral.
O facto de ser difícil, ou não, enveredar pelo mundo do teatro depende sobretudo da "capacidade de trabalho" das pessoas. Claro que para além do talento, tem de haver imensa "determinação, entrega, inteligência, cultura, conhecimentos gerais e vontade". A "versatilidade" é outro elemento essencial, para que a pessoa possa "moldar-se" ao que o criador da peça pede, além do factor "sorte" para que tudo aconteça no "momento certo". É necessário também passar por um "respeito em termos internacionais", pois não basta sermos conhecidos em Portugal, reconhece.
Dando o exemplo da companhia, o coreógrafo recorda que esta reside em Viseu, mas há alguns anos atrás "ninguém" fazia a mínima ideia de quem eram. "Tínhamos imensa dificuldade em trazer as pessoas ao teatro e agora a sala fica constantemente cheia e as estreias da companhia, como o "Malgré" e a "Noite de Reis" encheram o teatro durante várias sessões".
Trata-se de um trabalho muito grande de "perseverança", que está relacionada com o "reconhecimento" e com o facto de se trabalhar por "vocação" e não por uma questão de "oportunidade". O teatro é "vida", evidencia, pois tem a ver com estar vivo, e, confessa, dá "sentido" à sua vida.
Em termos de projectos, o coreógrafo fará em 2009 um "quarteto" para piano, dando também prioridade à linguagem coreográfica, à composição e à dança pura. No final deste ano, irá ainda a França montar algumas peças. Em 2011, o plano é "dançar e fazer um filme com Gonçalo M. Tavares", algo parecido a uma comédia musical, que terá uma versão filme e uma versão palco.
Com "Dedicatórias", em 2012, a companhia irá percorrer o país, dando "relevo à diversidade e identidade de cada região". Seria um projecto "giro" de passar pelos Açores, admite, e no qual os actores "fixam residência" numa cidade, fazendo depois uma pequena coreografia dedicada à mesma e ao espaço. Assim, aprendem a cidade através da "dinâmica" do teatro.

Raquel Moreira
Public in Terra Nostra, Outubro de 2008.

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