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terça-feira, 16 de setembro de 2008

"Um bocadinho de céu na terra"




João da Ilha


Aquilo de que mais gosta é de “gostar das pessoas”. João da Ilha define-se como sorridente, trabalhador, persistente e sonhador”. Natural da ilha Terceira, mudou-se para Setúbal para tirar o curso de Gestão de Recursos Humanos, que não terminou, pois “a música falou mais alto”. O cantor adorou o concerto nas Portas do Mar e avançou ainda que a sua estadia em São Miguel foi muito “intensa”.

Aos 20 anos viajou para Setúbal, para estudar Gestão de Recursos Humanos (curso do qual desistiu mais tarde), que lhe pareceu na altura uma opção “viável”, mas ainda não sabia qual o seu caminho. Aquilo de que mais gosta é de “gostar das pessoas”. João da Ilha define-se como sorridente, trabalhador, persistente e sonhador”. Nasceu na freguesia de São Bento, na periferia de Angra do Heroísmo, e cresceu praticamente como um “rapaz citadino numa ilha”.
O “interessante” do seu percurso de vida, foram as pessoas que conheceu e os “amigos” que fez.
Define-se como uma pessoa “sorridente, trabalhadora, persistente, sonhadora e que adora as pessoas” em geral. “Aquilo de que mais gosto é de gostar das pessoas”.
O que lhe custa mais é quando estas têm “falta de crédito em si mesmas e na vida”, pois a crítica, reconhece, às vezes “desilude” um pouco. Tenta dar outra perspectiva da vida, seguindo o seu sonho e pondo-o em prática, o que as pessoas às vezes vêem como “inspiração”. O que mais gosta nas pessoas é estas “sorrirem e amarem”, pois dá-lhe “prazer”. Referindo-se à forma como foram recebidos e tratados em São Miguel, o cantor classifica a ilha como “um bocadinho do céu na terra”.
Na tuna ultrapassou a sua timidez e desenvolveu as suas capacidades musicais, a cantar e a “apostar” mais. Já na Terceira cantava, mas apenas com amigos, pois era um pouco “envergonhado e tímido”. Estudou no Instituto Musical Mozart, onde teve aulas de guitarra, e na escola de Jazz do Seixal.
Trabalhou ainda na área de espectáculos, o que foi uma “óptima” escola, mas nos últimos dois/três anos “a música cada vez falou mais alto”. Teve também um dueto de guitarras com um amigo da Terceira, que também queria ir “o mais longe possível”.
Em 2007, decidiu seguir um caminho a solo e começou a tocar em alguns bares de Setúbal, e uma vez em Lisboa.
Referindo-se à vinda a São Miguel, João conta que conheceu António Severino quando foi actuar à Terceira, tendo sido depois convidado em directo na rádio, por Sidónio Bettencourt, para actuar com ele em palco. “Completamente apanhado de surpresa, disse logo que sim, pois era uma honra. Fizemos um pequeno ensaio no dia em que ele chegou, à noite tocamos e foi bonito”- enfatiza, avançando que a “empatia” com António foi “muito grande”. Diz gostar de fazer algo “giro”, o que afirma ter “cativado” um pouco as pessoas e era o seu objectivo. O cantor pretende cantar originais, mas também um pouco das origens da música portuguesa, algo com que as pessoas se identifiquem, porque os originais ainda não são muito conhecidos. As críticas, sublinha, têm sido “positivas”.
Não considera que a sua música seja essencialmente de “intervenção”, mas indirectamente reconhece que pode ter esta vertente. Raízes tradicionais, populares e de folclore, e influencias Zeca Afonso, Trovante, Madredeus, Zeca Medeiros, Luís Alberto Bettencourt, Luís Gil Bettencourt, Susana Coelho, marcam a sua música, “tal como todas as referências desde o Pop, Rock, Jazz e por ai fora"- esclarece.
Quanto ao facto de um artista tomar posições em relação ao que acontece na sociedade, João da Ilha avança que “depende das pessoas”, pois “há artistas que tomam posições e conseguem grandes feitos mundiais”. O que certas pessoas encaram como algo “positivo”, salienta, dando o exemplo de Bono, dos U2, que faz “imensas” campanhas mundiais.
“Não me vejo a tentar mudar o mundo e a tomar posições, mas há vezes em que isso acontece”, evidencia. "O Homem, o Velho" tem “claramente” uma intervenção social, que surgiu muito “naturalmente”. A música fala um pouco da "geração rasca", de que se falava há uns anos atrás. João da ilha aproveita para dizer que se “atacavam muito os jovens, mas estes vão buscar aos mais velhos, que é de onde obtemos a nossa primeira referência. Dizem que os jovens não têm respeito, mas o primeiro respeito tem que vir dos mais velhos. Assim, passamos de pais para filhos e netos”- argumenta, avançando que a canção não é uma critica, mas uma “chamada de atenção às pessoas mais velhas, não a nível cronológico, mas de espírito, para abrirem os olhos, o coração e não resmungarem tanto, acreditarem mais”.
Um artista em início de carreira tem sobretudo de “acreditar” no seu trabalho. Depois, há que estar “atento” para saber o que o mercado procura. Por um lado começa a haver uma “abertura” aos sons modernos essencialmente de editoras independentes. As grandes editoras para terem uma “boa” quota de mercado, justifica, continuam a apostar nos 'dinossauros' da música, como Jorge Palma, Sérgio Godinho, Rui Veloso, entre outros, que são quem efectivamente “ainda” vende discos.
Quanto à divulgação da música portuguesa nas rádios, João afirma ter havido um pequeno Boom, mas, lamenta, haver ainda rádios como a “Antena 3” (uma rádio “muito forte”), que podia passar “muito mais” música portuguesa.
Outras “passam muitos grupos portugueses, mas sobretudo a cantar em inglês, apostam mais em bandas portuguesas, mas continuam a dar uma vertente anglo-saxónica”- enfatiza, avançando que talvez seja mais “barato” para o mercado internacional. Mas, felizmente há rádios que têm apostado na música nacional, como a RFM ou a Radar, que se ouve “mais” agora.
Internacionalizar a música portuguesa é, admite, “difícil”, mas é “possível”, argumenta, dando o exemplo de Mariza que considera o “expoente máximo” do fado.
O objectivo “editar um EP e mais tarde um álbum e quando muito, a curto prazo, uma maquete para ir bater a algumas portas”. Estar na estrada, sem um cd para promover, “não faz muito sentido”. O cd será eventualmente uma “mistura” de músicas mais antigas (com nova roupagem) com outras mais recentes.

Biografia

João da Ilha nasceu em 1979 nos Açores, na ilha Terceira, onde absorveu as principais influências da sua musicalidade assentes nas tradições do folclore e das modas populares e nos estilos musicais de Rock e Pop, que predominaram nas rádios lá de casa nos anos 80 e 90.
Foi estudar para Setúbal, onde começou o seu percurso na música, passando pela Tuna Académica de Setúbal Cidade Amada do Instituto Politécnico de Setúbal, Instituto Musical Mozart (Setúbal), Dueto de Guitarras Acústicas chamado Projecto Ilha Zero, e Escola de Jazz e Música Moderna do Seixal. O seu mundo de influências está já mais diversificado, incluindo algumas influências de Jazz e Músicas do Mundo.

Já cantava e tocava guitarra a solo em Setúbal e Lisboa, quando, no início de 2008, começou a trabalhar com Nuno Carpinteiro (Acordeão) e Sandro Maduro (Viola Baixo e Voz). Músicos de Terras do Sado, companheiros de outras andanças do mundo musical académico, com o mesmo desejo de desenvolver um projecto moderno de música portuguesa. Também desenvolveram outros projectos musicais ao longo destes últimos anos, como a Einstein Band ou Tuna Académica de Setúbal Cidade Amada.
O Verão de 2008 foi marcado pela estreia do projecto no “Lounge caffe”, em Setúbal, e pela passagem nos Açores (Terceira e São Miguel), que teve a participação especial de António Severino do Tributo – São Jorge, nas percussões.
Actualmente trabalha também com João Moreira (Baterista), o mais recente membro do grupo, no sentido de prepararem novas gravações e actuações para darem a conhecer o seu trabalho a nível nacional. António Severino surgiu daquele feliz encontro e é convidado especial na Percussão (Cajon), sempre que possível!

Raquel Moreira


Public in Terra Nostra, Setembro de 2008.

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