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terça-feira, 30 de setembro de 2008

"Trabalhar uma ideia"


Centro de Empreendedorismo

É imprescindível hoje em dia ter “conhecimentos” e actualizá-los, pois estes têm uma esperança de vida muito curta e são “perecíveis”. Para se ser empreendedor, não basta querer. Segundo Belmiro de Azevedo, presidente da SONAE, são necessários “treino, formação” e essencialmente “educação”, pois quem não a tiver não tem “competências” para ser empreendedor e trabalhar uma nova ideia.

“O conhecimento e a inovação são molas de desenvolvimento e a empresa é o albergue da inovação”- foram palavras de Avelino Meneses, Magnifico Reitor da Universidade dos Açores, na inauguração do Centro de Empreendedorismo da Universidade dos Açores, realizada em Ponta Delgada no início da semana. Cerimónia que contou ainda com a presença de Gualter Couto, presidente do Centro de Empreendedorismo e; de Duarte Ponte, secretário regional da Economia, além de ilustres convidados como o empresário Belmiro de Azevedo.
Segundo o reitor da Universidade, no passado a riqueza das nações dependia da capacidade de acesso a recursos naturais e a níveis de produção. Havia disponibilidade de mão-de-obra abundante e barata, muitos deles escravos, recorda. Actualmente, a chave do progresso é o conhecimento, onde assenta a prosperidade neste advento do séc. XXI.
O relativo atraso de Portugal reside num “défice” de conhecimento que importa “superar”. O atraso político e tecnológico é também consequência de uma atitude política e da acção dos agentes económicos, que “preferem o produto final em vez da produtividade”.
Deve haver uma grande “interacção” entre a universidade e as empresas, para que o conhecimento tenha “impacto” económico, que deverá assentar num patamar de “responsabilidade e cooperação”.
Importa “transformar os jovens em promotores de emprego, em vez de mendigos de emprego”- acentua, avançando que a universidade tem uma missão “cultural universalista”.
Gualter Couto, presidente do Centro de Empreendedorismo, classifica as instalações inauguradas como “excelentes”, para dar continuidade a uma “cooperação” entre a universidade e o mundo empresarial. Estas permitem também à universidade desenvolver a missão de aplicar as mais “avançadas práticas”.
Importa “reduzir” o risco e a incerteza, salienta, revelando que este ano até agora já forma realizados cinco cursos de empreendedorismo, o que totaliza 65 formandos. Estão previstos ainda antes do final do ano mais três cursos, o que perfaz um total de 180 formandos em 2008.
O investimento no Centro de Empreendedorismo foi, sublinha, de 120 mil euros e foi suportado na sua maioria pelo “Líder Mais”, um programa de iniciativa comunitária, e por sponsers como o BANIF, Millenium, EDA, BES e a Zoom Cabo TV. O presidente do Centro aproveitou ainda para salientar que este “não acarreta despesas fixas nem operacionais” à Universidade dos Açores.
“Conhecimento, Inovação, Empreendedorismo e Governância” foi o tema da conferência que se seguiu, proferida por Belmiro de Azevedo, presidente da SONAE e o maior exemplo de empreendedorismo a nível nacional.
Segundo Belmiro de Azevedo, o conhecimento é “educação, formação e treino”, mas é também um bem “perecível” e é cada vez mais “curta” a aprendizagem nas escolas.
O treino é fundamental e as pessoas têm de ter “vontade” de utilizar as novas tecnologias, que são “aceleradores” de conhecimento. A experiência, explica, consiste na aplicação na prática desse conhecimento e também deve ser “permanentemente” ajustada.
“Importa que os poderes públicos forcem as empresas à modernização”- argumenta, avançando haver por vezes mais “défice de conhecimentos nos gestores”, situação que convém evitar, para uma maior “coesão” social.
Além de se querer ser empreendedor, é preciso poder sê-lo, porque uma pessoa que não tenha “educação”, admite, não tem competências para o ser. Ser empreendedor implica ter vontade de “arriscar” e uma definição do estilo de vida. A pessoa deve saber de antemão se está disposta a trabalhar aos fins-de-semana e fora de horas. Esta situação, recorda, já gerou alguns conflitos na sociedade, quando os comerciantes “queriam descansar no fim-de-semana e os consumidores pretendiam as lojas abertas”. O facto é que o consumidor, o progresso económico é que decidem.
O empresário afirma ainda que inovar é “usar o conhecimento para encontrar algo novo” e implica “partilha” dessa sabedoria. No caso de um negocio falhar, por exemplo, muitas pessoas têm mais “medo” de perder prestígio, do que dinheiro.
“Os governantes têm tendência a desprezar o respeito pelo meio ambiente”- enfatiza.
Belmiro de Azevedo via anda mais longe ao afirmar que o Estado não tem “opinião pública, credibilidade, nem dinheiro para se impor”, mas faz leis e tem um poder que, a seu ver, “não” deveria ter, o de “regular”. A sua grande função é “fechar” este triângulo para que haja progresso económico.
A produtividade, por sua vez resulta da “eficácia” do trabalho e da produtividade.
O segredo para a crise está na “poupança”, por parte do Estado, das empresas e dos cidadãos.
Duarte Ponte, secretário regional da pasta da Economia, começou por lembrar que se assiste na primeira década do século XXI, a uma transição “acelerada” para a economia do conhecimento e da informação, ao fim da energia barata proveniente dos combustíveis fósseis e à importância cada vez maior das “mudanças climáticas e das questões ambientais”. E nos países ditos desenvolvidos surgem dificuldades acrescidas na manutenção do Estado Providência, em parte devido ao “aumento da esperança de vida e da diminuição das taxas de natalidade”.
O aumento da população mundial coloca “problemas crescentes” no abastecimento de bens essenciais, por isso há uma “forte” pressão nas fronteiras da Europa. Os emigrantes de países menos desenvolvidos, como o Norte de África procuram a cidadania europeia, para trabalharem e terem “melhores” níveis de vida. Nas economias emergentes os ritmos de crescimento continuam “elevados”. Por exemplo, nos últimos 25 anos, o produto interno bruto (PIB) da China cresceu a um ritmo de “9.4% por ano”, num país já considerado a 4ª Economia do Mundo, imediatamente abaixo dos Estados Unidos, do Japão e da Alemanha. Isto, apesar de ter um PIB ‘per capita’ inferior a “metade” de Portugal.
Em 2007, a China apresentou uma taxa de empreendedores em estágio inicial de “16,4% “, o que correspondeu a cerca de “200 milhões” de potenciais homens de negócio.

Na União Europeia estas taxas são muito menores, há cada vez menos “estabilidade” nas empresas, a nível de empregos e a economia encontra-se numa fase de “estagnação”. A crise do “suprime” e de diversas instituições financeiras que atingiu os Estados Unidos começa a estender-se à Europa e o aumento do preço das matérias-primas, bem como a “escalada” do preço do petróleo têm provocado “abalos sucessivos” nas diversas economias do mundo ocidental. E as mudanças de paradigma que estão a ocorrer, têm “fortes” implicações no futuro profissional dos jovens que se formam actualmente.

De toda esta realidade, surge a necessidade imperiosa de adaptação das universidades e escolas de formação profissional a estes novos tempos. Resta saber, se os jovens estão preparados para estas mudanças.
As universidades são uma “pedra angular” no sistema de ensino e da investigação, por isso têm um papel “importante” nestas mudanças.

No actual contexto de crescente globalização, existem “dois factores” preponderantes na criação de riqueza. A “inovação” que é capaz de “gerar diferenças competitivas” e acrescer valor à produção, melhorando os níveis de produtividade e, o “empreendedorismo”, uma autêntica “força motriz” capaz de mover os factores de competitividade associados à inovação, à tecnologia, à qualidade, ao marketing, à informação e à organização.

A capacidade e a vontade de assumir riscos variam de indivíduo para indivíduo, mas a oportunidade, a necessidade, as condições de financiamento e a formação que se apresentam ao indivíduo são “determinantes”.
Não é por acaso que a maior parte dos empreendedores provem de famílias que já têm a sua própria empresa. Outras vezes, o empreendedor surge no seio de uma empresa que abandona para criar novos negócios. Sim, porque as empresas são as principais “escolas” do empreendedorismo.

Muitas vezes, é criado um novo negócio com base apenas numa nova ideia, em novas condições de mercado e numa nova tecnologia, mas a oportunidade desempenha um papel fulcral. Claro que também é necessário, reconhece, ter “condições financeiras” para o fazer e aí intervêm as instituições bancárias e os sistemas de incentivos.
“A necessidade aguça o engenho”, mas o jovem também se apercebe de que uma formação profissional não é nenhuma “garantia” de entrada no mercado de trabalho e muitas vezes o emprego conseguido não lhe concede a remuneração pretendida.
O empreendedorismo é “a capacidade dos indivíduos de colocarem as suas ideias em acção”, o que comporta criatividade, inovação e assunção de riscos, bem como a capacidade de programar e de gerir projectos com vista a “alcançar” objectivos. Esta competência torna os trabalhadores “conscientes” do contexto do seu trabalho e aptos a aproveitarem as oportunidades, servindo de base para aquisição de outras aptidões mais específicas e dos conhecimentos de que os empresários necessitam.
“A Universidade dos Açores ao inaugurar este Centro de Empreendedorismo está a dar um passo importante para também nesta área assumir um papel relevante nos Açores”-acentua.
O Estado e as empresas estão “negativos”, lamenta, acrescentando que nos cidadãos a taxa é “muito baixa”, de apenas 6 ou7%. “Poupa-se muito pouco e torna-se a ir buscar dinheiro à banca estrangeira e de uma maneira, que considera ser “perigosa”.
Não se pode emprestar dinheiro de uma instituição, que por sua vez já foi emprestado por outras, alerta, avançando que foi isso que aconteceu.
E o pior é que segundo o empresário, Portugal “ainda” não notou muito os efeitos da crise, pois no dia em que não se paguem “prestações”, sublinha, a banca tem outro sistema.


Raquel Moreira

Public in Terra Nostra, Setembro de 2008.

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