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sexta-feira, 8 de agosto de 2008

O Homem desconhece quantas espécies existem!!


Espécies em extinção

Há milhões de espécies à face da terra e muitas extinguiram-se pela destruição do seu habitat, sem que soubéssemos que alguma vez existiram. É esta a realidade e o maior ‘segredo’ que o Homem pode saber, é ter a consciência de que não faz a mínima ideia da diversidade de espécies que existe. Segundo Frias Martins, professor e investigador do Departamento de Biologia da Universidade dos Açores, a nível mundial existem cerca de 2400.000000 espécies já descritas, mas são 30.000000 as espécies que ainda não conhecemos. Os Açores, sublinha, têm “pouco mais de 100 espécies, das quais 45 são endémicas” (só existem na Região), mas existem ainda, pelo menos “mais 20” para descrever.


São tantas as espécies que existem no planeta, que muitas delas já se extinguiram sem que tivéssemos conhecimento de alguma vez terem existido. Nos Açores, a espécie mais ameaçada é efectivamente o priolo, havendo de momento pouco mais de 400 exemplares.
Frias Martins, professor e investigador do Departamento de Biologia da Universidade dos Açores, trabalha em assuntos relacionados com a “evolução dos moluscos terrestres” dos Açores, pois a Biodiversidade tem aspectos múltiplos e um deles é a sua origem”.
Os moluscos terrestres dos Açores são de interesse “particular ou peculiar, porque metade das espécies são endémicas (só existem nos Açores). Embora estas sejam cerca de 200 espécies no total, 50 delas são típicas dos Açores, são endémicas”. Por isso, salienta, são importantes, quer a nível da “conservação”, quer de mecanismos evolutivos, porque nos Açores podem estudar-se melhor estes mecanismos evolutivos. “Os moluscos terrestres dos Açores são o campo de eleição da minha actividade científica”.
Quanto à extinção das espécies, o professor relata que o problema foi reconhecido nos anos 60/70, sobretudo com uma “investigação pormenorizada das florestas tropicais”, em que se fizeram recolhas. “E a quantidade de espécies que não se reconhecia, ainda era de tal maneira, que se ficou com a certeza de que não se conhecia nada ou quase nada, do que existe na terra”. O facto, salienta, é que existem cerca de “2400 milhões de espécies já descritas, mas os números apontam para 30 milhões de espécies, que ainda não conhecemos”. Estamos ainda “muito aquém” de saber o que existe na terra o que torna difícil conhecer as espécies. “Isto, só em florestas tropicais que são focos de uma biodiversidade fantástica”- sublinha, acrescentando que a ciência começou a debruçar-se sobre outros focos de biodiversidade como os “mares tropicais, os recifes coralinos ou os grandes fundos marinhos, dos quais pouco se conhece”. E todos os dias, lembra, eram “inúmeras” as espécies a serem reconhecidas como novas e esses 30 milhões começaram a “aumentar”. O problema é que esta biodiversidade estava a perder-se a um ritmo “alucinante e os focos de grande biodiversidade estavam a ser destruídos.”- lamenta. Ainda hoje, cerca de o “equivalente à área de um campo de futebol” de florestas tropicais, é destruído “por segundo”. Por isso, há muitas espécies que estão a desaparecer e “nunca” saberemos que elas desapareceram, porque nunca saberemos que elas existiram. Deu-se pela biodiversidade, “infelizmente” pelo seu desaparecimento e dos ecossistemas onde esta existe.
Nos Açores, “a biodiversidade não é muito grande, mas é bastante pouco conhecida. Temos pouco mais de 100 espécies, das quais 45 são endémicas. E existem, para além destas 45 espécies já descritas, pelo menos mais 20 para descrever”- esclarece, avançando que tratar-se de “falta de conhecimento”, que irá advir dos projectos que está a desenvolver.
“O descrever das espécies não é pura e simplesmente fazer uma lista, é compreender qual o seu enquadramento taxonómico, qual o seu enquadramento na sistemática geral e os relacionamentos dessas espécies com outras”. Mais do que saber se há uma espécie nova, importa saber com quem esta está relacionada, como chegou onde chegou e isso poderá trazer-nos informação a respeito do passado biológico das nossas ilhas e, quais as “dinâmicas” que existiram e que, ainda hoje, talvez imperem no processo evolutivo. Por isso, também nos Açores a biodiversidade “não está tão conhecida”, como deveria.
Quanto aos moluscos terrestres que estão a desaparecer, a grande parte deles são moluscos de dois, três ou quatro milímetros, que são “irrelevantes” para a grande maioria das pessoas. O que importa saber é que eles desaparecem, “não porque se esteja atrás deles, mas porque o ambiente, o habitat onde eles vivem está a ser destruído”. Por isso, os Açores em ponto pequeno, mas em “proporção igualmente grave”, estão a experimentar “a extinção, devido à deterioração e destruição do habitat” a nível global. Os Açores são “mais ricos”, do que o que se pensa.
A maior dificuldade com que se depara é efectivamente a “falta de tempo”, pois são muitos os assuntos sobre os quais se debruça e as prioridades são geralmente de nível “burocrático” e têm ser logo resolvidas, caso contrário “há máquinas que param”. E quando estuda algo, descobre outras coisas de que precisa saber, antes de se pronunciar. “Tenho as gavetas cheias de desenhos, as estantes cheias de frascos, milhares de fotografias com algo inacabado”.
Não temos espécies em extinção, além do Priolo, mas “espécies a mais” que alteram o quadro taxonómico ou natural biológico regional. Estas vêm de fora, como o pardal. Outras, como o verdilhão, foram trazidas já no séc. XIX e “já as reconhecemos como nossas”. Outra ave marinha é o Garajau, sobretudo o Garajau Rosado, porque do Garajau comum, temos já colónias “muitíssimo representativas e abundantes” a nível mundial. O Cagarro também é “importantíssimo” nessa área. Há cerca de 80% da população mundial de Garajau Rosado que nidifica nos Açores, que são um “baluarte” para esta espécie. Importa, é saber onde eles estão e “acarinhar” qualquer lugar, que escolham para se reproduzirem.
A espécie emblemática, em vias de extinção e a que a nível mundial é reconhecida como uma ave bastante ameaçada é o Priolo, um problema “bastante grave” a nível de biodiversidade na Região, pois a espécie dispõe de apenas “400 exemplares e não são casais”. “E os Açores têm a dúbia honra de ter a ave mais ameaçada da Europa e a honra de ter um projecto galardoado a nível internacional, para protecção desta mesma ave”- salienta.
O turista de aves, alerta, vem apenas observar e levanta-se cedo, mas não faz mal nem perturba nada. Apenas “tira fotografias, vai embora satisfeito, faz registos e ajuda a comunidade científica, proporcionando informação que vem a ser útil na conservação desta avezinha” simbólica, que já conquistou o “coração” das pessoas.
Eles viviam nas Furnas em grande quantidade, mas depois o habitat foi destruído, sobretudo ligado às florestas naturais que foram diminuindo, havendo agora apenas a Tronqueira e o Pico da Vara. É lá que ele vive e raras vezes se vêem exemplares fora deste ambiente. A restituição do habitat natural foi a grande aposta e é isso que se está a fazer, é este o caminho para preservação das espécies. Aliás, a actuação do governo regional tem sido exemplar, com abordagens legislativas acerca da conservação do habitat, de zonas protegidas.
Há que apontar para os chamados ‘hot spots’, os lugares quentes de biodiversidade, onde existem grande número de espécies e preservar aquele habitat. Não, por causa do Priolo ou do Garajau Rosado, os únicos que nos dariam alguma visibilidade, mas pelas outras espécies. No caso dos moluscos terrestres, a ilha de Santa Maria é a “jóia” das ilhas açorianas em termos de biodiversidade. Não apenas pela enorme quantidade de moluscos endémicos próprios da ilha, mas por, devido à sua idade, ser um ponto “essencial na compreensão do processo evolutivo do aparecimento das espécies” e da explicação para aquilo que nas outras ilhas existe.
Referindo-se às implicações destas extinções em termos ecológicos, aponta haver duas maneiras de constatar quais são. Enquanto formos a medida da natureza, estamos a enviesar todo e qualquer valor de uma maneira gravíssima, porque tudo dependerá das nossas necessidades, que dependem do nosso grau de evolução. Evolução no sentido do nosso grau de consciência mesmo humana, porque há necessidades básicas como comer e dormir, há outras necessidades humanas menos básicas (mais mentais) e há outras espirituais. Mas quando se fala de necessidades, normalmente nivelamos por baixo. Temos que atender a estas necessidades básicas, mas não podemos deixar que este seja o ponto de referência para o valor das coisas. Por isso, como estudo algo de que não depende a sobrevivência da humanidade em termos económicos, tenho dificuldade em que seja este o critério básico para se decidir do valor das coisas. As coisas têm um valor económico, mental e de sensibilidade e também moral, próprio, intrínseco que não depende do nosso juízo, mas da existência destas. Falando nos ciclos em que estamos envolvidos, avança que quando vamos ao supermercado, muitas vezes não pensamos que o atum não vive em caixas, em latas, mas no mar. Mas esquecemos que somos parte da natureza, que tem os seus próprios ciclos e esta não vive em estufas. As coisas estão tão interligadas, quer o biológico, o biótico, o abiótico e quando começamos a retirar da natureza de uma maneira “enviesada” alguns elementos, o equilíbrio perde-se. De facto, a natureza depois consegue restabelecê-lo, mas não é em tempos que nos sejam úteis. Ao destruir-se uma floresta endémica dos Açores, numa semana destrói-se tudo isso, mas são necessários 200 ou 300 anos, para que ela volte quase ao que era antes. A existência humana em termos de tempo é irrelevante em termos de natureza, de maneira que há um “desfasamento”, entre a nossa vida e o que queremos atingir. “Não esperamos 100 ou 200 anos para que um negócio dê frutos, queremos que seja de um ano para outro em 300 ou 500%, quando a natureza faz as contas 2, 3 ou 4% e nós queremos tirar muito mais”. Daí as monoculturas intensivas, que têm o seu preço, mas também têm o seu lugar, só assim é que podemos “sobreviver”. O reconhecimento da biodiversidade como algo de integrante ajuda-nos a “compreender o lugar dos seres vivos na natureza, mesmo que nós não compreendamos”.
A maior parte dos medicamentos vêm de produtos químicos que a natureza inventou para se defender ou para conquistar pela agressividade. E quando se destrói a natureza, destrói-se algo que seria muito “útil” à sobrevivência da espécie humana.
“Temos mais de 400 espécies de peixes nos Açores, mas cerca de 10 ou 12 aparecem na nossa mesa. Há muitas espécies que ainda não conhecemos ou a que não estamos habituados. Só a falta daquilo a que estamos habituados é que nos via empurrar para ver quão bom é outra espécie, que antes era lixo, como o chicharro e o peixe-espada branco. Há muitos hábitos que o Homem tem de alterar face à natureza, sobretudo a visão que tem dela, deve ser mais virada para o valor das coisas em si. “As pessoas têm de ser instruídas”-acentua.
O crescimento da consciência que o homem tem da natureza é um sinal do seu “crescimento como ser humano mais completo”, por isso a educação e a satisfação dos requisitos básicos para qualquer pessoa têm de vir antes da tentativa de “instrução” do que quer que seja. Mas os Açores já passaram esta fase, ou se não fizeram foi por algum problema grave circunstanciado. “Os estudos que temos desenvolvido fornecem depois material aos decisores, para que estes possam decidir de uma maneira muito mais esclarecida. Outro objectivo destes estudos é integrar os Açores como um laboratório natural reconhecido científica e internacionalmente, aí colocamos os Açores no roteiro dos interesses científicos mundiais, onde já residem sob o ponto de vista da vulcanologia, oceanografia e de biodiversidade”. Estes estudos são também “integrados” nas aulas dadas na Universidade e os alunos na investigação.


Raquel Moreira

Public in Terra Nostra, Agosto de 2008.

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