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sexta-feira, 8 de agosto de 2008

"Arriscar e ter o coração aberto"


André Sardet lança álbum em Setembro

Desde pequeno que está ligado à música. E o facto é que, após 10 anos de espera e de persistência para editar o seu primeiro álbum, André Sardet conseguiu chegar à ribalta, sendo hoje autor de vários sucessos como “Quando te falei em amor” ou “Foi Feitiço”. Segundo o simpático cantor, que edita um novo álbum em Setembro do corrente ano, devemos” arriscar e ter o coração aberto”, para sermos “felizes”.

“Foi Feitiço” e “Quanto eu te falei em amor”, são alguns dos êxitos deste cantor que esperou 10 anos pela fama e, actualmente, é acarinhado por muitos.
André Sardet, natural de Coimbra, começa por revelar que “sempre” pretendeu enveredar pelo mundo da música, pois sempre a teve “dentro” de si. Estudou durante muitos anos para seguir uma carreira de Engenheiro Mecânico, na qual a música era um ‘hobbie’, mas quando descobriu a composição e que esta tinha um papel “calmante” o cantor percebeu que a composição o tornava uma pessoa “mais bem resolvida”, acabando por sentir um “apelo” maior, em relação à música. “Costumo dizer que a composição é o meu Xanax, resolve os meus problemas, as minhas dúvidas, inquietações”- acentua.
André Sardet iniciou a sua carreira em 1995 com a assinatura de um contracto e lançou o primeiro álbum em 1996, mas, admite, os primeiros anos de carreira “não foram fáceis”. Pelo contrário, sublinha, foram anos de “muito trabalho, muita luta, muita perseverança e algumas negas”. Finalmente, em 2006, “10 anos depois de ter começado”, é que o cantor sentiu reconhecido o seu trabalho.
André Sardet aproveita a oportunidade para salientar que “nem todos os dias foram fáceis”, mas, argumenta, quando se gosta muito e de uma forma “quase sobrenatural” - sentimento que nutre em relação à música – “não há obstáculos, nem ninguém que nos demova, ou que tenha o direito de me dizer que aquilo que eu faço não é válido”- enfatiza.
O cantor avança ainda que sendo “sincero” e trabalhando com uma “entrega total e absoluta, ninguém tem o direito de dizer a alguém que o trabalho não é válido. E eu lutei contra essas pessoas que tinham um bocadinho de preconceito em relação ao meu trabalho”- explica, revelando que a mãe lhe dizia muitas vezes não saber como o cantor “aguentava ir tanta vez a Lisboa”, com tantas coisas a correrem-lhe “mal” e Sardet “não desistia”. O segredo de tanta persistência foi, esclarece, o facto de saber que “um dia ia acontecer esta viragem na minha carreira”. A sensação de estar em palco afirma ser “única”, pois é lá que gosta de estar, é “bom”.
Quando soube que o projecto ia em frente, Sardet sentiu que finalmente se estava a fazer “justiça”, em relação ao seu repertório. E “foi muito bom”, ressalva, pois a seu ver o projecto acústico é “quase um caso para fazer reflectir algumas pessoas”, que decidem neste país e, que, apesar de tudo, contribuiu para “alterar” o panorama musical. Isto, pois, na sua opinião, as pessoas “que decidem”, tanto nas rádios, como nas televisões olham para a música portuguesa, com algum “benefício da dúvida”. E, continua, dão a oportunidade ao público de “decidir” quais os músicos que este quer, ou não, ouvir.
Referindo-se ao álbum “Acústico”como exemplo, André Sardet explica que o trabalho foi primeiramente “agarrado pelo público”, que comprou-o e começou a “insistir” com as rádios para tocarem “Foi Feitiço”. E quando as rádios perceberam isso é que começaram a tocar “a sério”, lamenta, acrescentando que aí o disco já era de platina.
Salientando não estar a “inventar nada”, o cantor afirma que, a partir dessa altura, as bandas novas, acabadas de formar e de gravar disco começaram a passar nas rádios principais e “o público decidiu” se queria, ou não, ouvir. O público decide, foi esta a “lição”, que tirou destes seus 10 primeiros anos de vida musical.
O que mais aprecia nas pessoas diz ser a “verdade”, pois não se considera “ingénuo” e não gosta de pessoas “cínicas, nem de pancadinhas nas costas”.
“Prefiro que me digam as coisas na cara, o que não levo a mal. Levo a mal, é quando fazem precisamente o contrário. E isso é uma qualidade que aprecio nas pessoas, sou assim e muitas pessoas não apreciam esta minha maneira de ser, mas não fico bem com a minha consciência se olhar para uma pessoa e achar que lhe estou a esconder alguma coisa ou que não estou a ser correcto. É o que eu mais gosto que façam comigo e que menos gosto que não façam”- esclarece.
A sua base de inspiração é a “vida”, o cantor costuma mesmo dizer que para escrever só precisa de viver, de “observar” coisas à sua volta, de “viver situações”. E “basta um amigo me contar uma história para senti inspirado com algo da vida dele, basta ter uma experiencia com a minha filha e isso faz-me compor uma música para ela”. São tantas coisas, salienta, que no fundo basta estar “atento e saber absorver” aquilo nos dão de “bom e de mau”.
Questionado sobre se o artista tem uma certa responsabilidade social e se deve ou não, tomar posições, o cantor avança que este ano através da Ecotour, tentou “sensibilizar as pessoas para as causas ambientais”, uma área que muito o “preocupa”.
“Como pai de uma criança de quatro anos, mais do que deixar muito património, carros ou casas, é preferível deixar-lhe um planeta habitável”- defende, lamentando haver muitas pessoas que ainda não perceberam, que “há apenas 1% de água para consumo no planeta”, que o “aquecimento global é uma realidade à qual não podemos fugir”, ou que as massas geladas estão a “diminuir drasticamente e que as alterações climáticas serão a 3ª Guerra Mundial”.
É fundamental perceber que esta realidade diz respeito a “todos nós e “não é por estarmos nos Açores, em Lisboa ou noutro ponto qualquer do nosso país, onde aparentemente nada de mal está a acontecer, que a realidade vai ser diferente”.
O que se faz, lembra, tem “consequências” noutros locais do mundo, noção que é essencial “passar para as actuais e futuras gerações”.
Referindo-se à internacionalização da sua música, afirma não pensar nisso, pois canta em português e sabe que será “difícil”. O cantor vai ainda mais longe ao defender que, “só o Fado pode ser um caminho”. Por outro lado, Sardet reconhece que teria “muito orgulho, claro” que algum cantor famoso, um dia “ouvisse um tema meu e o cantasse e adaptasse” para inglês ou francês.
Foram muitos os concertos que gostou de fazer, sublinha, acrescentando que em 2007 tocou “quase 90 vezes”. Mas o espectáculo que deu recentemente no Coliseu Micaelense encheu-lhe as medidas, foi algo “místico” e “bastante interessante”, pois a “carga emocional” daquela sala é muito “evidente”.
E continua, dizendo que o espaço é “fantástico”, tem uma história de “pessoas muito teimosas”, como ele próprio considera ser, que acreditaram muito naquele projecto e que tiveram a ambição de trazer para os Açores uma sala, à escala do que se fez no Coliseu de Lisboa”. Sardet salienta ainda tratar-se de uma história “muito bonita”, que na sua opinião contribuiu muito para a “cultura” de São Miguel e da Região.
Falando nesta vinda aos Açores, o cantor refere-se ao Porto dos Carneiros como um local “único”. Sobre ter de lidar com a fama, André Sardet afirma ser a pessoa mais “normal” a esse nível, acrescentando não ter a pretensão de se achar “diferente” dos outros. “Só tenho de ser diferente em cima do palco, é ai que tenho de marcar a diferença”- esclarece, avançando ser dar “sempre” autógrafos no fim dos concertos e quando lhe pedem. O único senão, é, revela, não gostar que lhe tirem “fotografias, sem autorização”, pois não gosta de “paparazzis”.
Diz serem várias as mensagens na sua música, mas a mais “abrangente” fala das “relações entre as pessoas”, nas quais defende que devemos “ter o nosso coração um bocadinho mais aberto e arriscar um bocadinho, para sermos mais felizes”. Por outro lado, Sardet lembra também transmitir mensagens da “frieza”, com que algumas pessoas passam ao lado de situações “problemáticas e não ligam”.
O cantor recorda ainda uma música, que fala sobre “uma criança, que partiu um braço pela negligência grosseira, de um hospital português”. A sua música lida com “temas reais”, com os quais as pessoas se identificam.
Quanto à situação actual da música em Portugal, afirma sermos uma “gota no oceano” da indústria musical mundial, mas a seu ver conseguimos “defender” o que é português. Sardet lembra também a existência, de uma lei que “defende a música portuguesa na rádio”, mas lamenta estarmos a sofrer o processo da “globalização, dos downloads e das gravações”, o que leva a indústria a não ter “margem de lucro, dificultando o investimento” em novos projectos. Por isso, “é cada vez mais frequente os próprios músicos investirem nos seus discos”- explica, acrescentando que foi o que teve de fazer em 2004 e no lançamento em 2006 de “Acústico”.
“Enquanto, antigamente, se vendiam 40 ou 50 mil discos, hoje vendem-se 3 mil, 4 mil ou 10 mil”- acentua.
O balanço de carreira é “positivo”, sublinha, avançando estar “muito feliz e realizado”, por sentir que, “finalmente, as coisas estão a correr no sentido certo”. O novo álbum sairá em Setembro e, enfatiza, está a dar lhe um “gozo imenso”. Trata-se de um projecto que “vai surpreender sem desiludir”, mas não é para tocar muito ao vivo, alerta.
Depois de 120 concertos com o projecto “Acústico”, o cantor defende ser preciso “dar espaço ao pouco espaço que tem Portugal e regressar mais tarde, pois não pretende “cansar o público com uma presença muito forte e intensa”- esclarece, acrescentando que em Setembro encerra a tournée do “Acústico”, e regressa em 2010.
Sardet tem previsto à volta de “10 espectáculos, muito específicos”, pois trata-se de um álbum temático e não de um projecto para “banalizar, ou misturar” com o resto da carreira, “não faria sentido”.
Biografia
Tem com a música uma relação de tão grande verdade e paixão, que se confunde com um sofrimento que o muda e o torna mais próximo de quem gosta de si e do seu trabalho, ao mesmo tempo que lhe alimenta o desejo de resistir a pressões e imposições descabidas. É assim que define o que sente pela actividade que lhe ocupa os dias.
Nascido em
Coimbra, a 8 de Janeiro de 1976, André Sardet ficou conhecido pelo tema "O Azul do Céu", mas o cantor nem sempre quis escrever canções e tocar guitarra.
Sempre foi uma criança esperta o que, talvez, lhe tenha despertado o interesse pela montagem e desmontagem dos brinquedos que lhe ofereciam. Queria ser mecânico, pois gostava muito de carros, mas a música, que na altura também já lhe rondava as ideias, acabou por vir ao de cima com mais intensidade.
Durante a adolescência fez parte de uma banda, mas pouco depois abandonou o projecto, começando a compor por conta própria. Quando se apercebeu que tinha material suficiente para gravar um disco, colocou as cartas na mesa, editando em 1996 o seu álbum de estreia, a que chamou "Imagens". Para além de "Azul do Céu", o registo incluiu ainda canções como "Frágil", "Não Mexas no Tempo" e "Um Minuto de Prazer". Dois anos mais tarde, estava nas lojas um novo álbum de originais intitulado "Agitar Antes de Usar" e que teve por single de apresentação o tema "Perto, Mais Perto".
Sem pressa de chegar ao centro das luzes da ribalta, André Sardet optou por fazer uma pausa mais alongada no que tocou à edição de um novo disco, tendo aproveitado para reflectir sobre os seus objectivos, estudar e viajar. Começou, então, a compor um álbum autobiográfico, a que chamou "André Sardet", e no qual conta alguns dos bons e maus momentos da sua vida. Disco que foi editado em Setembro de 2002, contando com a colaboração de Rui Veloso, Luís Represas e Mafalda Veiga. Em 2006, o músico comemora 10 anos de carreira com o álbum "Acústico", que inclui 15 músicas gravadas ao vivo no Teatro Académico de Gil Vicente, em Coimbra, e uma nova versão do tema 'Quando eu te falei em Amor'. O cantor é também autor de "Foi Feitiço", a famosa música cujo álbum foi um enorme sucesso, tendo ultrapassado as 140 000 cópias de discos vendidos. Em 2007, Sardet realizou uma grande tournée de sucesso literalmente por todo o país, que promete repetir-se com o lançamento do novo álbum do cantor.
Da sua discografia, constam “Imagens” (1996); “Agitar Antes de Usar” (1998) e; “André Sardet” (2002) como álbuns de originais e o álbum ao vivo designado deAcústico” (2006). Em Setembro de 2008 está previsto sair à rua mais um álbum do cantor.


Raquel Moreira

Public in Terra Nostra, Agosto de 2008.

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