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segunda-feira, 11 de agosto de 2008

A divulgação da musica portuguesa é "mediocre"


Ala dos Namorados

Portugal é um país “periférico com um mercado pequeno” e que acaba por ser facilmente “esmagado” pela grande corrente anglo-saxónica. Talvez por isso, a divulgação da música portuguesa nos Média seja “no mínimo, medíocre”.
Segundo Manuel Paulo, músico e produtor da “Ala dos Namorados”, se há muita música “boa”, também há “muito lixo”, que a seu ver nos é “impingido na rádio e televisão em doses maciças”.
Os gostos, reconhece, são “subjectivos” e estão ligados ao “nível cultural das pessoas”, mas, “felizmente”, a pessoa tem a possibilidade de “escolher” o que consome, há lugar para “tudo”.

Nasceram em 1993 e, desde essa altura, o sucesso marcou sempre os passos do grupo, que já editou “Ala dos Namorados” (1994); “Por Minha Dama” (1995); “Alma” (1996); Solta-se o Beijo” (1999); Cristal (2000); “Ao vivo no S. Luíz” e; “Mentiroso Normal”, em 2007. “Solta-se o Beijo” (canção que deu o nome ao álbum), da autoria de Catarina Furtado, é efectivamente um dos maiores êxitos da banda conhecida a nível internacional, já para não falar n’ “A História de Zé Passarinho”.
Nuno Guerreiro (voz); Manuel Paulo (piano, acordeon e sint.); Pablo Banazol (guitarras); Massimo Cavalli (contrabaixo); Ruben Santos (trombone) e Jaume Pradas na bateria, formam a conhecida e afamada “Ala dos Namorados”.
Manuel Paulo, piano, acordeon e sint., começa por contar que a “Ala dos Namorados” nasceu em 1993, à volta de uma série de canções com letras do João Monge, musicadas por João Gil e por ele próprio. A ideia inicial, explica, foi “dar essas canções a várias vozes”. Depois de alguma procura, encontraram a “peculiar” voz de contra-tenor de Nuno Guerreiro, vocalista da banda, que a seu ver se incorporava “belissimamente” em todas as canções. “Pusemos de parte a ideia de procurar mais vozes e, com a junção do guitarrista Moz Carrapa ao grupo, estava criado o núcleo central da Ala dos Namorados”- acentua.
A escolha do nome do grupo, revela, foi “absolutamente aleatória”. Apenas se juntaram com amigos e começaram a “atirar” nomes para cima da mesa. Entre algumas ideias “absolutamente lunáticas”, enfatiza, acabaram por adoptar a ideia de um amigo, o nome Ala dos Namorados que tem ainda a vantagem de possuir uma “carga histórica com algum romantismo”. Historicamente, a expressão refere-se ao lado direito do quadrado formado pelo exército português durante a Batalha de Aljubarrota, em 1385, segundo conta Fernão Lopes na Crónica do monarca D. João I (
1357- 1433).
O músico lembra também que 15 anos depois, o grupo tem já sete discos gravados, acrescentando poder dizer-se que “existe um som da Ala”, tanto na voz de Nuno, como nas composições e arranjos, nos quais misturam “muitas” referências. Isto, alerta, sem que se perca um “fio condutor estético”, onde está bem presente uma certa “portugalidade”.
“Mesmo quando trazemos sonoridades mais latinas, jazz, ou música de câmara para a nossa música, reconhece-se um exotismo português. Penso que é uma das razões pelas quais a Ala faz muitos concertos fora de Portugal”- esclarece.
Referindo-se à "História de Zé Passarinho", o pianista da banda afirma ser um tema onde recriam, à sua maneira, um ambiente de “marcha de salão” e onde está bem presente a vertente “fadista” da Ala, isto sem utilizar a linguagem “tradicional” do fado. Avança ainda não terem a pretensão de “rigor formal”, nem de “inovar” seja o que for, pois esta é a forma do grupo trazer o fado, tal como outras músicas, para a sua “casa”. Capacidade, que defende terem “amadurecido bem” ao longo dos anos, a de receber “ambientes diferentes, sem os trair”, e não perdendo a sua “estética”.
Quanto às mensagens que a música transmite, Manuel Paulo afirma serem “muitas” e considerando esta a “mais universal das artes”, o músico explica que pode ser entendida de “muitas” formas. E “há sempre uma ideia numa canção, por muito abstracta que seja, ou mesmo que não tenha palavras”- enfatiza.
Reconhecendo que a música tem sempre uma “carga” e reflecte “épocas e períodos da vida” colectiva e pessoal das pessoas, lembra existirem épocas a nível nacional e internacional “bem definidas por associação a uma música ou canção”, tal como, sublinha, há “sempre” canções associadas às épocas da nossa vida.
O pianista do grupo vai ainda mais longe ao afirmar que a música é a mais “transversal” das artes, a que mais “unifica” as pessoas, reunindo pessoas das mais variadas “nacionalidades e culturas”, em volta de causas comuns.
Como exemplo, o músico lembra o concerto para o Bangladesh em 1971 a favor das vítimas da fome no Bangladesh, que levou a “variadíssimas” iniciativas, como o “Live Aid” e mais recentemente o “Live Eight”, que “chamaram a atenção do mundo para questões prementes”, o que só foi possível através da música.
Em relação à divulgação da música portuguesa nos Média, classifica-a no “mínimo” como “medíocre”, reconhecendo que Portugal ao ser um país “periférico com um mercado pequeno”, acaba por ser facilmente “esmagado” pela grande corrente anglo-saxónica.
“Se vem muita coisa boa, vem sobretudo muito lixo, que nos é impingido na rádio e televisão em doses maciças”- salienta, admitindo porém que os gostos são “subjectivos” e estão directamente ligados ao “nível cultural das pessoas”, que hoje considera estar “mais ou menos normalizado”. Mas, “felizmente”, a pessoa tem a possibilidade de “escolher” o que consome, embora que teoricamente, pois a informação na música, (e não só), sublinha, é “parcial”.
O músico acredita haver lugar para “tudo”, revelando ter “saudades” dos programas de rádio autor em que se conversava, trocavam-se pontos de vista e ouvia-se música, “sem a ditadura das play-lists” e sem o culto do “previsível e do sucesso garantido”, geralmente “efémero e bastante primário”.
No caso de haver realmente uma “crise” na indústria, afirma não acreditar que esta esteja em quem faz música, argumentando que a crise até pode ser “estimulante”, na medida em que é algo a ultrapassar. “A prova é que continua a aparecer muito bons músicos e compositores”- enfatiza.
Que “haja espaço e condições para a vida cultural deste país, para que a vida não se resuma a betão, betão, dinheiro de qualquer maneira e futebol”- é o desejo de Manuel Paulo.
Lembra ainda que a Ala dos Namorados se encontra em tournée do “Mentiroso Normal”, desde Março de 2007. No fim da tournée, em Dezembro de 2008, o grupo irá fazer uma pausa para “dar forma” às novas canções.
Falando nos Açores, o músico confessa ser “muito gratificante” regressar à Região, para visitar, desta vez, a Graciosa, onde irão tocar pela primeira vez. “Todos os anos, temos ido, pelo menos, uma vez ao Arquipélago. Depois da Graciosa, só nos falta tocar no Corvo”- afirma, satisfeito.
Manuel Paulo revela ainda que a banda gosta “muito” dos Açores, Região onde cada ilha tem a seu ver uma “identidade especial”, tanto pelas pessoas, que “sempre nos receberam impecavelmente”, quer pela natureza das ilhas. Outro aspecto que deixa o músico satisfeito é saber que estas, “felizmente”, estão a ser poupadas ao “’patobravismo’ nacional dos senhores do betão”, que considera destruírem “quase tudo” por onde passam.
Desde o cd “Alma” (1996), revela, o grupo colabora “regularmente” com artistas açorianos como Zeca Madeiros, com quem já fizeram “vários” concertos e que participa também no “Mentiroso Normal” (2007).
O pianista da banda aproveita, ainda, para dizer terem sido convidados por Luís Bettencourt, para um espectáculo em São Miguel, acrescentando sentir-se em “casa, neste “fantástico” arquipélago.

A banda

A Ala dos Namorados nasceu em 1993 pelas mãos de João Gil, Manuel Paulo, e João Monge, aos quais se juntou depois José Moz Carrapa. Não havia ainda propriamente um grupo e a ideia inicial do João Gil era ter várias vozes para as diferentes canções que iam fazendo.
Descobriram
Nuno Guerreiro num espectáculo de Carlos Paredes e convidaram-no para integrar o elenco, tendo alcançado bastante êxito nos anos 90 e actuado diversas vezes em festivais fora de Portugal, nomeadamente na Bélgica, Holanda, Espanha, França, Itália, Brasil, Japão, Canadá, Macau e Grécia, a par com o circuito de concertos em Portugal.
Depois do lançamento do álbum “Alma”, Moz Carrapa deixa a banda, que, em
1998, apresenta o álbum “Solta-se o Beijo”, que chegou a disco de platina. A canção que dá título ao disco, da autoria de João Gil e Catarina Furtado, foi o primeiro grande êxito popular do grupo, que continuou com concertos regulares em Portugal e no estrangeiro.
João Gil e Manuel Paulo continuam a compor, levando mais longe as possibilidades estéticas do grupo e a banda edita em 2000 o duplo álbum “Cristal”, que foi disco de ouro, contando com a participação de Carmen Linares, Aldo Brizzi, Jacques Morelenbaum e da Orq. Filarmónica de Turim. Durante algum tempo os membros da banda dedicam-se a outros projectos, mas em
2004 gravam um DVD e um CD, intitulado “Ao vivo no S. Luiz”.
Paralelamente aos concertos, os elementos da Ala foram desenvolvendo outros projectos musicais, tendo João Gil composto com João Monge, o projecto “RIO GRANDE” e com Carlos Tê o projecto “CABEÇAS NO AR”, ambos de grande sucesso.
Nuno Guerreiro grava um disco de standards com uma orquestra japonesa, co-produzido por Manuel Paulo, e um outro de canções pop.
Manuel Paulo grava o disco “ASSOBIO DA COBRA”, composto com João Monge, e prepara com Adriano Luz, o musical com o mesmo nome, que esteve em cena no Teatro S. Luís, em finais de 2006.
Após a saída em
2007, de João Gil (que forma a Filarmónica Gil), o grupo edita “Mentiroso Normal”, tendo como guitarrista Mário Delgado e com canções de João Monge e Manuel Paulo, também responsável pela produção.
Da discografia do grupo constam “Ala dos Namorados” (1994); “Por Minha Dama” (1995); “Alma” (1996); Solta-se o Beijo” (1999); Cristal (2000) e; “Mentiroso Normal”, em 2007. Isto, além do cd e dvd de 2004, “Ao vivo no S. Luíz, acompanhado de uma
tournée com a Orq.Metropolitana de Lisboa, que deu também origem a um disco produzido pelo Montepio Geral, assim como concertos em parceria com Rui Veloso, com orquestra dirigida pelo maestro Rui Massena. Destaca-se também a actuação em Macau com a ORQ. CHINESA DE MACAU dirigida por Pang Ka Pang, da qual ficou a ideia para uma gravação num futuro próximo.
Cumpre-se mais uma tournée de espectáculos e João Gil funda o grupo “FILARMÓNICA GIL”, com quem grava dois discos. Manuel Paulo leva à cena no Teatro S. Luís o musical baseado no disco “ASSOBIO DA COBRA”, a par com a composição de novas composições para a Ala, que irão gerar o novo disco.
“Mentiroso Normal” gravado em 2006 com canções de Manuel Paulo e João Monge, uma participação de Carlos Tê e um tema de José Mário Branco, foi editado em 2007 com o selo da Universal Music, passando o primeiro tema de promoção, “Caçador de Sóis”, a passar nas rádios.


Raquel Moreira

Public in Terra Nostra, Agosto de 2008.

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