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sexta-feira, 29 de agosto de 2008

Abandono de animais "horroriza" turistas


Medicina Veterinária

Basta sairmos à rua para depararmos com vários animais abandonados pelas ruas, muitos deles até com anomalias provenientes de “atropelamentos”. Situação que não pode continuar, se é que a Região pretende ter “turismo de qualidade”.
“O governo tem de agir”, pois os próprios “turistas ficam horrorizados”, ao constatar esta realidade. A polémica questão dos cães considerados perigosos é outra dor de cabeça para o veterinário Damião, que defende ser um “exagero abater os animais mais violentos”, bastando apenas pôr-lhes um açaime e a respectiva trela, para que nada aconteça.
Basta sairmos à rua para depararmos com vários animais abandonados pelas ruas, muitos deles até com anomalias provenientes de “atropelamentos”. Situação que não pode continuar, se é que a Região pretende ter “turismo de qualidade”.


“O governo tem de agir”, pois os próprios “turistas ficam horrorizados”, ao constatar esta realidade. A polémica questão dos cães considerados perigosos é outra dor de cabeça para o veterinário Damião, que defende ser um “exagero abater os animais mais violentos”, bastando apenas pôr-lhes um açaime e a respectiva trela, para que nada aconteça.
Damião, veterinário e proprietário da Clínica Veterinária da Mãe de Deus, começa por contar ter feito o curso de regente agrícola, o actual Engenheiro Técnico Agrário. Depois, relata, surgiu a oportunidade de tirar medicina veterinária, algo em que já tinha pensado “há muito tempo”. Afirma ser uma área de “muita concorrência”, como acontece em todas as profissões, e lembra também que na área dos “pequenos animais tem crescido um bocadinho”, reconhecendo que tudo tem o seu período de “crescimento e estagnação”. O veterinário aproveita para dizer que apesar desta área ter crescido um pouco, “não cresce directamente na proporção dos alunos que vão saindo das escolas”, alertando a existência de uma “grande incongruência”, porque o nosso país tem escolas a mais. “Portugal com nove milhões de habitantes tem seis escolas, duas privadas e quatro estatais, enquanto a Suécia tem o mesmo número de habitantes e só tem uma escola; a Inglaterra com 40 milhões de habitantes tem três escolas; a França tem três escolas; a Alemanha tem uma escola só e; os Estados Unidos têm sete escolas, sublinha, avançando que não se “compreende” que isso aconteça num país tão “pequeno”, nem a “política da educação” vigente. Criam-se cursos e depois, evidentemente, que “não há espaço” para todos os recém-licenciados.
Quanto às maiores dificuldades do dia-a-dia, diz ser tudo uma questão de “adaptação”, explicando que actualmente com os meios de comunicação social que há é tudo “muito facilitado”.
O que o deixa mais “desolado” são os estrangeiros, salienta, lembrando estarmos numa terra “virada para o mar e para o turismo”, o que a seu ver não acontece nesse aspecto. “Os estrangeiros ficam horrorizados quando encontram cães com varias anomalias pela rua”- alerta, acrescentando que se costuma dizer que o “espelho da vivencia do país se nota na maneira como se trata os animais”. Os abandonos são realmente “muitos”, o que, acentua, “preocupa muito” os estrangeiros.
O veterinário relata já ter “despachado muitos cães para o estrangeiro”, pois as pessoas encontram-nos na rua ou às vezes deixam-nos na clínica para esterilização. “As pessoas pedem-nos que arranjemos uma adopção, o que às vezes conseguimos”- afirma, satisfeito, avançando que esta é a área que o preocupa mais. “É um problema cultural”, sublinha, reconhecendo que este ainda vai perdurar por “muitas” gerações.
O proprietário da clínica Mãe de Deus aproveita ainda para dizer que “o governo devia deitar mão a isso”, pois visto este fazer “grandes investimentos em publicidade na área do turismo”, deveria “acautelar-se internamente” com essas situações. Sim, porque “se realmente querem ter turismo de qualidade, não se pode continuar a manter os animais na rua e com atropelamentos”. Como eventuais soluções, o médico veterinário aponta uma “maior vigilância” e uma “mudança de mentalidades com um certo arejamento”, que devia ser feito.
Por outro lado e reconhecendo tratar-se de um problema “cultural”, o veterinário admite serem precisos “muitos anos”, até as pessoas se mentalizarem. Damião lembra ainda ter tido recentemente um cliente alemão que queria “despachar” uns cães para Dublin, na Irlanda, tendo lhes feito a devida desparasitação e todo o resto que é necessário. “A senhora ligou-me da Irlanda, a dizer que os cães não podiam sair da alfândega, porque eu não tinha posto a hora em que foram desparasitados e levaram a vacina”- explica, evidenciando que o “rigor” que os estrangeiros tem nestas questões é “extremo” e nos Açores devia haver “muito mais vigilância”.
O veterinário salienta ainda que a clínica passa o boletim de sanidade, mas quando a pessoa circula com o cão, “ninguém” lhe pergunta nada. Por “incrível” que pareça, acentua, as pessoas circulam com os cães de um lado para o outro e “não há ninguém que fiscalize”, situação que considera um “escândalo” e que “não pode” continuar.
“As autoridades veterinárias ou a GNR, alguém tem que fiscalizar as coisas, porque a maioria das pessoas diz que ninguém lhe perguntou por nada e isso não acontece em qualquer país normal”.
Um hotel para cães é algo que “gostava” de ter, mas a zona onde trabalha não lhe permite, explica, reconhecendo que já existem vários hotéis para cães na ilha e alguns com “boas” condições.
Referindo-se ao movimento de clientes, afirma não se poder queixar, lembrando estar no negócio há cerca de 30 anos. Lembra ter começado com os “grandes” animais, pois quando regressou havia “muito poucos” veterinários e era preciso fazer de tudo. A certa altura, decidiu mudar para os pequenos animais, porque chega-se a um ponto em que “não se pode fazer muito e apenas até certa idade”. Além, disso esta área exige “muito esforço físico”.
Afirma receber normalmente “cães, gatos e já começam a aparecer alguns animais exóticos” também. Quanto às doenças que surgem com maior frequência, evidencia a “falta de vacinação”, o que acontece porque chega o verão, o calor, a humidade e as pessoas “esquecem-se” que o meio ambiente também está “conspurcado” e que é preciso fazer a vacinação, que é “importantíssima”.
O veterinário aproveita para alertar as pessoas, lembrando-lhes que quando tiverem a intenção de ter um animal, devem “pensar primeiro” que estes são uma “máquina viva”, que é preciso “alimentá-los e aplicar-lhes os cuidados médico-veterinários” e, lamenta, “nem sempre” isso acontece. Há muitas complicações que surgem e que não deveriam, desde as “gastroenterites” ou a falta de uma alimentação “correcta”.
“Qualquer pessoa pode ter um cão, mas no resto da Europa as coisas já não se passam assim. Eles primeiro fazem uma triagem dos animais disponíveis e depois vão vasculhar a vida privada da pessoa, para ver se tem condições ou não, para poder ter o cão e demonstram-lhe que é preciso ter responsabilidade e condições económicas para ter um animal”- enfatiza.
Referindo-se aos cães considerados perigosos, afirma ser uma questão muito “polémica”, pois “os cães normalmente são aquilo que os donos querem”, mas às vezes são “estigmatizados e desviados” para outras áreas, que não a social, a de companhia ou de caça, por exemplo. Explica haver sempre um aspecto fenótipo, que é a parte exterior do animal, e o genótipo, que é a parte interna, logo há “sempre uma tendência genética” que os animais trazem. Mas, na sua opinião, a “educação sanitária e o treino” fundamentalmente, é que tornam os animais perigosos. Os animais não nascem perigosos, sublinha comparando-os às pessoas. Conforme o “traquejo e o tratamento” que os donos lhes dão é que “realmente podem surgir actos de lutas, como parece que já se faz aqui na ilha”.
A seu ver, a legislação é um pouco “exagerada”. Castrar ou abater todos os animais considerados perigosos é um “exagero e uma violência”.
“É passar do oito para o 80”, defende, avançando não concordar de “maneira nenhuma”, que se abatam os animais.
Além da “linhagem genética”, salienta, o ‘segredo’ está no “tratamento” dado aos animais, que sendo mau pode depois “extravasar em situações de violência”. E continua, dizendo que as pessoas “não podem” circular com os cães, se estes não forem devidamente “açaimados e atrelados”, que é fundamentalmente o que está previsto na lei e não há outra maneira de os “conter”.

Raquel Moreira
Public in Terra Nostra, Agosto de 2008.

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