quarta-feira, 2 de julho de 2008

O segredo é "conjugar esforços"


Turismo de Cruzeiros

O turismo de cruzeiro pode vingar na Região, que tem todas as potencialidades para que isto aconteça. Mas, segundo os peritos na matéria, para isso é fundamental que todas as entidades trabalhem em conjunto. Deste modo, o turismo na Região poderá desenvolver-se a bom bordo, ainda mais com o novo terminal de cruzeiro que está a ser construído em Ponta Delgada. Tratar os turistas como gostaríamos de ser tratados e evitar a todo o custo demoras e atrasos nos horários é outro ponto essencial nesta área, que é uma aposta do Governo Regional para os Açores.


Para que a indústria de cruzeiro tenha sucesso nos Açores e para que estes deixem de ser apenas um ponto de passagem, transformando-se num destino para os turistas que optam por viajar no mar, é essencial que as autoridades locais trabalhem em conjunto, de maneira a que o sucesso esteja no fim da linha. Esta e outras ideias foram expostas no Workshop intitulado “The Cruise Industry of Today and Tomorrow”, realizado em Ponta Delgada. A Sessão de Abertura deste encontro ficou marcada pelas intervenções de Carlos Adalberto Silva, presidente do Conselho de Administração da Portos dos Açores, e de Duarte Ponte, secretário regional da Economia.
No evento, realizado pela Portos dos Açores SGPS, S.A. e patrocinado pelo governo regional, foram abordados temas como o crescimento do mercado de cruzeiro e o posicionamento dos armadores, as expectativas criadas pelas novas facilidades em Ponta Delgada, o que ter em conta na organização de excursões em terra; as oportunidades para os Açores, as operações em terra, a rotação de passageiros e a promoção, entre outros.
Carlos Adalberto Silva explicou que este Workshop está integrado no objectivo do governo regional de “desenvolver o turismo de cruzeiro na Região”. Para isso, foi necessário, antes de mais, dar a conhecer esta indústria a todas as entidades envolvidas, em toda a sua “escala” e quais os padrões de serviço prestados.
Duarte Ponte, secretário regional da Economia, revelou que os portos dos Açores, com 73 escalas, aproximadamente 69 mil passageiros e uma quota de 11 % do total nacional, estão em “terceiro lugar” no movimento de navios de cruzeiro, a seguir às estruturas portuárias do Funchal e Lisboa.
Chris Ashcroft, Director e fundador da Ashcroft &Associates Limited, explicou que as características dos passageiros podem “variar” de um cruzeiro para outro, pois, “às vezes, um cruzeiro destina-se a um determinado tipo de turista”, aproveitando para salientar que neste Workshop estiveram presentes “48%” da indústria de cruzeiros.
John F. Tercek, vice-presidente da Royal Caribbean Cruises, deu uma visão global do mercado de cruzeiros, avançando que a Royal Caribean e a Carnival, entre outras, são empresas muito “lucrativas”. “Trata-se de marcas nacionais, que procuram essencialmente clientes americanos e britânicos”- esclarece.
Salienta ainda que não estamos perante um mercado de companhias “grandes”, mas sim de companhias de “várias dimensões”, sendo o cliente, normalmente, de classe “média” nestas companhias de “4 estrelas”.
Em 2006, operaram “150 navios na Europa, entre Abril e Novembro”, transportando 150 mil passageiros. Ou seja, “3,6 milhões de pessoas” optam pelo cruzeiro na Europa.
O empresário lembra também que durante um cruzeiro, as pessoas “visitam as cidades”, acabando por gastar dinheiro “roupa, táxis e alimentação”. As Caraíbas são o destino mais procurado (50%), seguido do Mediterrâneo (15%); “agora também os Açores”; o Alaska (8%), o Báltico (5%) e a América do Sul, com 4%.
Por sua vez, Bruce Krumrine, vice-presidente de Operações em Terra da Princess Cruises, salientou ser “muito importante que este encontro se realize num país com história muito importante e que dá tanta importância ao mar”. Avança ainda que a Carnival representa “80% da indústria de cruzeiros a nível mundial”.
Dirigindo-se aos agentes de viagens, sublinha que o objectivo é trabalhar com eles. “Queremos ser parceiros, oferecer os nossos serviços e dar aos passageiros memórias para uma vida”- acentua.
Bruce regressa algumas décadas no tempo, até chegar à época de D. Afonso Henriques e lembra que, em 1400, Portugal atravessou o Cabo da Boa Esperança, avançando que é fundamental “planear um itinerário” através de “cinco” factores. Assim, é essencial saber “o que o cliente quer; a importância de cada ponto de paragem nas decisões de compra; os portos devem aspirar a ser um porto preferencial; é pedido ao cliente que diga o quanto gostou de cada porto e; ter noção de que as paragens dão-se onde isso acontece”. Devem ser levadas em conta a “qualidade e a variedade”.
As entidades “devem trabalhar de forma conjunta para desenvolver os portos dos Açores. Estes serviços devem ser invisíveis se trabalharem bem”- alertou, avançando serem também factores importantes, “o terminal de cruzeiro; a satisfação; o retorno; a proximidade geográfica e; as operações aéreas no horário”.
Referindo-se aos Açores, o empresário sublinhou que a Região tem oportunidades que devem ser “agarradas”, acrescentando que na “redução da velocidade ou do número de portos” reside uma solução de combate ao constante aumento do preço dos combustíveis. Além disso, revela, têm preferido pagar as facturas em dólares, visto este estar “mais fraco”.
A verdade é que havendo uma aposta na “qualidade, no valor e nos serviços” esta indústria vai continuar, “independentemente” do preço dos combustíveis.
Dirigindo-se às autoridades açorianas, Bruce revela querer criar “confiança e sentimentos de um compromisso duradouro”, acrescentando apostar na qualidade que considera ser “bem percebida pelos portos líderes actuais”. Além disso, há que manter uma “identidade definida, planear o itinerário, perceber o mercado; a ligação entre o porto e a cidade e os benefícios em terra”, pois é preciso “tratar milhares de passageiros num só dia”, o que torna o “planeamento” algo primordial.
Na sua opinião, o Infante criou uma nova “visão” e uma “ambiciosa”, como a sua, requeria um “plano muito bem definido”. “Ele apostou no comércio e rodeou-se de peritos, lançando uma escola náutica”- salientou, argumentando que Portugal continuou a desenvolver-se graças a esta visão. Estas práticas podem ser aplicadas aos portos regionais, que estão “dependentes” do porto principal. Dai a necessidade de “trabalhar em conjunto”.
Dando o exemplo do Fado e da sua mistura mente/coração, Bruce argumenta que tem haver “divergência de serviços” nos portos, para proporcionar aos clientes uma experiência “diferente, única e distinta”, de modo a criarmos uma “identidade”.
“Os portos são importantes, da mesma maneira que o Fado tem um papel distinto”- acentuou.
O empresário anuncia ainda algumas das “melhores” práticas no turismo de cruzeiro, como ter uma “visão partilhada” e; a “interdependência e a independência regionais”.
Bruce termina, reconhecendo ter “muito” a aprender com a história de Portugal, admitindo ser esta uma oportunidade de “abrir portas ao mundo” ao trazer turistas a Portugal.
Segundo John Tercek, da Royal Carabbean Cruises, o objectivo passa agora por fazer com que os Açores sejam destino desta indústria e não apenas um ponto de passagem.
“.É preciso dar a conhecer mais os Açores para que estes sejam vistos como destino turístico nesta área do turismo de cruzeiro” - é a principal ideia deixada por John Tercek, uma das maiores empresas do turismo de cruzeiros.
Esta empresa viaja da Florida para Europa, na primavera e no regresso a maioria dos Navios param nos Açores por um dia.
Numa altura que a frota aumenta, espera-se aumentar igualmente o número de paragens nos Açores. John Tercek adianta que os navios não ficam mais tempo nos Açores, até porque os americanos não conhecem muito os Açores. Reforça a necessidade de promover mais os Açores, para que este tipo de turistas possam consideram importante os Açores como destino.
Este empresário dá o exemplo da promoção feita pelas Bermudas que é muito bem feita daí o destino dos Americanos ser para lá, e se os Açores promoverem mais intensamente o seu destino, este poderá fazer parte dos pacotes turísticos dos Americanos.
Philip Naylor, Gerente de Frota e de Operações em Terra e no Mar na P&O Cruises; Cunard Lines e Ocean Village, aborda a importância da equipagem.
Na sua opinião, os Açores estão “muito bem situados” enquanto rota de cruzeiros. “As ilhas atlânticas são um destino muito procurado”- evidencia, acrescentando que a indústria quer “novos destinos” e que os Açores vão ter muita importância nesta área. Salienta ainda que podemos criar rotas ligadas ao “ambiente e à ecologia”, revelando ter 15 cruzeiros” para Ponta Delgada, pois o investimento foi “grande”.
“Queremos que os passageiros recomendem o cruzeiro aos amigos”. Resta saber como aplicar este desejo nos portos, pois “o futuro está no turismo”.
É preciso saber como satisfazer o mercado, pois é o cliente quem “define” muitas vezes as rotas e os portos – admite, acrescentando que o número de navios que visitam Ponta Delgada já “aumentou” de 50 para 100. O “maior” número de portos possível é uma influência “muito positiva nas receitas”.
É ainda extremamente importante que o passageiro tenha “acesso à cidade”, quando o navio pára no porto, pois “o lucro é para a cidade visitada”. Além disso, a maioria dos passageiros “não gosta de andar 2 ou 3 quilómetros a pé” para ir para o centro da cidade. Logo, são necessários autocarros e é preciso evitar viagens complicadas até à baixa o que tem uma “grande influência” nas respostas dos inquéritos. O transporte deve ser “fácil; acessível; razoável e eficaz”.
A seu ver, importa transformar o destino num “sonho” e mostrar um cruzeiro como algo “sensual”, pois as expectativas, sublinha, têm de corresponder à realidade.
O empresário aproveita também para lembrar que é extremamente desagradável quando há “atrasos, por falta de organização”, em que os passageiros ficam “muito tempo” dentro do navio, podendo ainda ter “problemas com as autoridades”.
Nos Açores, afirma não ver grandes problemas, pois estes têm uma actividade turística “bastante desenvolvida”.
Philip salienta também que, “quando há trabalho de equipa, tudo funciona de uma maneira mais eficaz”, pois, sublinha, os representantes da cidade e as autoridades portuárias também têm de “participar”. E têm de, “unidos”, planear objectivos e estratégias.
Outro ponto fundamental é a tripulação que, revela, contribui “30% para o crescimento e desenvolvimento” das cidades, em termos de “despesas” em terra. A sua importância é “inegável”, pois os passageiros depositam toda a “confiança” na tripulação. Por isso, é essencial fornecer-lhe dados com “qualidade”, nomeadamente sobre as leis dos lugares a visitar, de maneira a evitar problemas com as “autoridades portuárias”. Outro elemento essencial é o porto ter programas desenvolvidos para oferecer, porque se estes existem “muito rapidamente” aparecem mais turistas.
Na Sessão de Encerramento, Carlos Adalberto Silva, presidente do Conselho de Administração da Portos dos Açores, S.A., salientou que o objectivo primordial deste Workshop foi a “formação”, dependendo o sucesso do “envolvimento de todos”, perante este desafio em termos de desenvolver serviços de “qualidade”.
“Temos grandes expectativas para os Açores”- sublinhou, avançando que a “criatividade” será essencial neste contexto.
À margem do evento José Luís Simão, Director da Shore Tours, avançou que esta iniciativa foi uma maneira de “promover” este tipo de turismo e o país, porque “precisamos de portos e de cais onde os navios grandes possam atracar”.
“E quanto mais destinos tivermos, melhor conseguiremos atrair os operadores”-admite, acrescentando que os Açores têm “todas” as possibilidades. Afirma que São Miguel é a ilha “mais bonita” que conhece e defende que se pode desenvolver, mas reconhece também ser “difícil”, pois os investimentos são “muito grandes”. Argumenta ainda que Ponta Delgada terá “muito mais” a ganhar com os grandes navios de cruzeiro, do que Lisboa, porque “o comércio necessita muito de pessoas”. O próprio empreendimento Portas do Mar irá, a seu ver, “contribuir” para o desenvolvimento e fará com que seja “mais fácil”, as pessoas voltarem à cidade.
Falando no futuro, afirma que serão muitos mais cruzeiros a “passar” pelos Açores, do que propriamente existirem “circuitos próprios”, pois diz não ver “possibilidades” disso. Pode haver eventualmente, mas, alerta, não será o ponto a desenvolver.

Raquel Moreira
Public in Terra Nostra, Junho de 2008.

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