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segunda-feira, 19 de maio de 2008

Economistas: Há muitos, mas são poucos!


A Delegação Regional da Ordem dos Economistas já tem novos Órgãos Sociais. Segundo Mário Fortuna, os objectivos primordiais deste mandato foram "consolidar os alicerces" e apostar cada vez mais na formação dos profissionais do ramo.
O bastonário dá-nos ainda uma visão da economia regional, nacional e dos factores que levaram a crise, hoje internacional, tão longe.

"O lema da nossa candidatura foi continuar a consolidar os alicerces, para contribuir para a formação de profissionais cada vez melhores"- foram palavras de Mário José Amaral Fortuna, presidente da Delegação Regional da Ordem dos Economistas, na cerimónia de tomada de posse dos Órgãos, da referida entidade, eleitos para o triénio 2008/2010, realizada em Ponta Delgada.
O presidente da delegação regional começa por dizer que em 2002, aquando da criação da delegação regional foram movidos pela "convicção de que é importante agregar os profissionais" à volta de uma instituição que possa "valorizar" os actos profissionais relevantes; "promover um elevado sentido ético" do exercício da profissão; "contribuir para a discussão pública de questões relevantes" para a sociedade e, colaborar para um cada vez maior "contributo dos economistas na sociedade".
O programa de trabalho do primeiro mandato, recorda, visava "consolidar alicerces para o futuro" e, deram-se alguns avanços nesta matéria, como o "aumento do número de associados; a participação no processo de revisão do posicionamento da Ordem face às mudanças introduzidas pelo processo de Bolonha" e; a promoção de um conjunto de debates sobre temas "relevantes", entre eles, o "rumo do desenvolvimento dos Açores, as finanças públicas e o turismo".
Ainda por terminar, lamenta, está o processo de "montagem de um espaço próprio, autónomo", que permita identificar "inequivocamente" a delegação.
Referindo-se ao novo mandato, revela que a tarefa agora é de completar uma organização que possa ser "assumida e catapultada" para novas iniciativas, o que só será possível com um "espaço próprio"; com apoio na "consolidação das condições pessoais e colectivas" de exercício da profissão; com uma maior "participação dos economistas no debate publico de questões relevantes a nível económico" e com a criação de um "espaço na Internet" dedicado aos Açores, para que os economistas regionais possam estar "informados e intervir".
"Aumentar a participação de licenciados na Ordem" é outro objectivo, visto que esta dispõe de "170 associados nos Açores, de 800 a 1000 licenciados na Ordem e, de 600 candidatos nas universidades".
Tomaram posse como vogais efectivos Rui Duarte Gonçalves Luís e António Maurício do Couto T. de Sousa. Como vogais suplentes temos João Pedro Almeida Couto e Mário Sérgio Machado Santos.
À margem do evento, e abordando o papel da Ordem na sociedade, Mário Fortuna avança ainda que esta é um "espaço de reunião" de profissionais na área da economia, que tem como missão fundamental "defender o exercício da profissão e agrupar o economista à volta de princípios". Princípios, que considera terem como principal objectivo "sublinhar os aspectos éticos" do exercício da profissão e, também, em termos cívicos, a "responsabilidade das Ordens em intervir nas situações públicas de interesse", que pretendam "contribuir no âmbito da profissão e das nossas capacidades técnicas", para uma análise das questões relevantes na política económica corrente.
Referindo-se aos Açores, afirma que a Região tem "especificidades próprias", que os economistas têm "obrigação de olhar com calma".
"E ao fazê-lo, devem olhar para elas na perspectiva do economista, do analista que olha para as coisas e as disseca, em função da formação de base que tem"- acrescenta, lembrando contudo que nesta perspectiva a formação de base que os economistas têm,
se aplica aos Açores "como a outros espaços nacionais e internacionais", pois a especificidade deriva das características próprias deste espaço, da mesma forma que o Algarve e o Norte são espaços específicos.
Mário Fortuna diz ainda, haverem "bastantes" economistas nos Açores, "se calhar" não tantos como seria necessário, enfatiza, lembrando estar a referir-se tanto aos economistas como aos gestores. Explica, também, que embora existam muitos, "à volta de 800", ainda há "falta", porque a julgar pelo índice de emprego, "não há desemprego na área da economia". O que significa que ainda "há espaço" para economistas.
Neste sentido, argumenta que "a universidade tem desempenhado um papel importante", na medida em que tem formado muita gente, dispondo actualmente de um stock de alunos, na ordem dos 700.
"Nos próximos anos, teremos bastante gente ainda em formação e a Universidade continuará a providenciar quadros necessários para o desenvolvimento dos Açores"- acrescenta, salientando não haver ainda economistas em número suficiente nos Açores, o que faz com que haja "sempre espaço, se a economia se mantiver em crescimento".
O bastonário da Ordem dos Economistas aproveita a ocasião para mencionar um aspecto que considera primordial, que é o facto de "cada vez mais as empresas exigirem competências adicionais dos seus quadros".
"Mesmo empresas relativamente pequenas, começam a recrutar economistas exactamente, porque reconhecem a vantagem de ter pessoas mais qualificadas. Funções que anteriormente eram desempenhadas por pessoas sem qualificações superiores, agora passam a ser desempenhadas por licenciados, o que é fundamental"- esclarece, lembrando que a ordem é um espaço também de "organização destes profissionais, onde se defendem determinados princípios éticos e certos objectivos de comparticipação destes profissionais na vida activa social".
Mário Fortuna vai mais longe, ao afirmar que considera que a economia regional tem evoluído de forma "positiva", embora, reconhece, esteja naturalmente ainda a alguma distância das médias nacionais. A seu ver, os Açores percorrem neste momento um percurso "normal de aproximação de valores nacionais", que se espera que a Região atinja "rapidamente".
De resto, continua, a economia regional tem estado, de certa forma, "resguardada". Isto, na medida em que o Orçamento da Região é "fortemente apoiado no Orçamento nacional" e, por isso, argumenta, não temos sofrido as “grandes crises da retracção", da economia nacional.
"Os modelos encontrados para o financiamento da economia regional acabam por nos proteger. Neste sentido, temos usufruído duma instabilidade muito razoável, ao longo dos últimos anos e estamos numa senda de crescimento que se espera que seja contínua e nos aproxime das médias nacionais de desenvolvimento"- acentua.
Questionado sobre a recente afirmação de Duarte Ponte, na qual o secretário regional da economia afirma que a Região tem recebido alguns 'respingos' da crise nacional, Mário Fortuna contrapõe que esta irá "sempre" sentir respingos da crise nacional e da "euforia" nacional e internacional. Isto, pois, na sua opinião, a economia dos Açores é "fortemente integrada na economia nacional e é obvio que, sempre que haja grandes movimentações da economia nacional haverá algum reflexo" na economia regional.
Reflexos, estes, que terão maior ou menor intensidade, dependendo das "características específicas destes choques, mas a tendência é sempre a mesma".
"Economias integradas tendem a mover-se mais ou menos em sintonia"- recorda.
Falando do panorama nacional, diz estar bem melhor do que há uns anos atrás, mas o país ainda está "longe", de atingir o nível de desenvolvimento e estabilidade de que gozam a generalidade dos outros países da União Europeia.
Mário Fortuna salienta que Portugal ainda se encontra a pagar a factura de alguns "desacertos" da política económica nacional, que ocorreram nos "finais da década de 90 e no princípio deste século".
"Ainda estamos a pagar um pouco, aquilo que se fez de mal naquela altura"- situação que classifica como uma "euforia, sem fundamento, em termos de despesa pública".
Mas, afirma confiante, a tendência é sairmos desta situação e juntarmo-nos ao resto da Europa num percurso de crescimento "mais positivo". O que poderemos fazer, espera-se, sem termos de estar continuamente "preocupados com o 'apertar do cinto' e com o espectro de termos instituições nacionais a insistir na correcção de problemas. Problemas que, reconhece, "nós próprios devíamos ter corrigido naturalmente. Mas estamos no bom caminho", apesar de não ser o ideal.
Admite, também, que a maior "falha" nesta desaceleração da economia foi o facto de Portugal ter gasto "demais", numa determinada altura. Situação, que, sublinha, temos de "corrigir através de apertos significativos".
"É assim mesmo, quando se gasta demais numa determinada altura, tem que se corrigir
E nós estamos num processo de correcção de exageros, de há uns anos atrás"- lamenta.
Referindo-se ao próximo ano, afirma que a perspectiva é de haver um "retrocesso, relativamente aos avanços de um passado mais recente, mas espera-se que passada esta crise conjuntural e internacional, se retome novamente o crescimento".
As perspectivas para 2008, são de um crescimento mais "desacelerado ou mais lento, do que o de 2007, e que em parte deriva da crise que "já não é nacional, nem europeia, é internacional".
Revela ainda que esta crise teve origem nos Estados Unidos, com o problema do "Subprime, o Crédito de Alto Risco", que precisamente por ser muito arriscado, levou à "falência" algumas instituições financeiras e gerou muitos "prejuízos" em outras tantas.
Trata-se um crédito imobiliário, no qual os empréstimos são essencialmente, quando não na totalidade, garantidos pelo valor dos activos.
Os sectores com maior dificuldade nesta conjuntura, considera serem os que "dependem fortemente de crédito corrente, como o sector imobiliário que poderá ser fortemente afectado", enquanto a situação de "liquidez dos mercados internacionais" não for corrigida. Quando isso acontecer, salienta, poderemos retomar uma "rota normal de crescimento", o que, a seu ver, fará toda a diferença.
"Neste momento, a economia mundial, a economia real está a ser afectada pela falta de liquidez do sistema monetário internacional, que deriva exactamente do problema do Subprime"- lamenta, contrapondo tratar-se, "seguramente", de uma situação cíclica, mas que "não deixa de ser negativa e implicou recursos no desenvolvimento económico do mundo, não só de Portugal".
Ultrapassá-la, enfatiza, só será possível através da "coordenação internacional das entidades reguladoras dos mercados financeiros e de uma gestão cuidada por parte dos bancos centrais mundiais".
Caso contrário, nada há a fazer senão "esperar que os problemas gerados por esta crise sejam sanados e que se retome a normalidade", porque grande parte do problema é a
"falta de liquidez". Mas o bastonário reconhece também a existência de uma "grande incerteza", por não se saber ao certo qual a "extensão" dos danos causados pela crise.
"Depois de sanada esta crise e de clarificados os problemas na sua essência, ficamos em boas condições de retomar um percurso normal, não ao nível que tínhamos anteriormente, mas o importante é limpar o que correu mal no passado, para que possamos rapidamente progredir para o futuro"- conclui.
BIOGRAFIA

Mário José Amaral Fortuna nasceu e vive em São Miguel, Açores. Completou a licenciatura em 1978, na Universidade de Massachussets em Dartmouth Estados Unidos da América, o mestrado em 1981 e, o doutoramento (todos em Economia) no ano de 1983, na Boston College. Em 1993, obteve equivalência do doutoramento pela Universidade dos Açores, ao abrigo da legislação portuguesa, especializando-se nas áreas de Economia Monetária, Comércio Internacional e Econometria. Desde 1990, é professor associado de nomeação definitiva da Universidade dos Açores.
Durante o seu doutoramento nos Estados Unidos, leccionou micro e da macro economia no Boston College e no Simmons College, em Boston. Colabora ainda com a Universidade Católica a ministrar diversos cursos avançados para gestores, e em dois seminários. Um sobre a economia dos Açores e, o outro sobre a avaliação de projectos de investimentos.
Na Universidade da Madeira, foi um dos elementos principais na revisão do curso de Gestão daquela instituição, coordenando ainda as disciplinas da área da economia.
Nos Estados Unidos, colaborou também com o Social Welfare Research Institute, na área da investigação, onde participou em dois estudos de grande envergadura da realidade social e económica do país. Nos Açores, desenvolveu a sua actividade na Universidade, chegando a ser director do Centro de Estudos de Economia e Gestão.
Assumiu, de forma quase contínua, responsabilidades dentro da Universidade, tendo inclusivamente elaborado o seu primeiro estatuto.
É, desde 1993, Presidente do Conselho Científico da Universidade e Director do Departamento de Economia e Gestão. A sua actividade de investigação tem resultado em diversas publicações e múltiplas presenças em seminários, conferências e colóquios, geralmente centradas em questões relativas ao desenvolvimento e à política económica nos Açores.

Raquel Moreira
Public in Terra Nostra, Maio de 2008.

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