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segunda-feira, 26 de maio de 2008

"É bom que o povo acorde depressa"

III Encontro Açoriano de Lusofonia


Os Açores não são muito conhecidos no mundo, com excepção das “comunidades”. Chrys Chrystello reconhece que há uns anos, ele próprio não sabia que havia escritores nos Açores, terra de que só conhecia os “terramotos” que via na televisão e o anticiclone. Alerta também para o facto de os portugueses não darem valor à sua língua, à sua cultura, não terem orgulho no que são e estão, por isso, “condenados a continuarem na cauda da Europa.
A Lagoa foi palco do III Encontro Açoriano da Lusofonia. "Insularidade, Isolamento e Preservação da Língua Portuguesa" constituiu o tema central do evento. O Terra Nostra falou com Chris Chrystello, que abordou a situação dos Açores no mundo e o acordo ortográfico.

Chris Chrystelllo, presidente da comissão executiva do Encontro, membro das Universidades de Brighton e Helsínquia e tradutor do governo australiano, começou por dizer que quando chegou aos Açores, em 2005, dispôs-se logo a criar uma “versão local dos Colóquios Anuais da Lusofonia”, iniciativa que organiza desde 2001 e que tem sido “a única, concreta e regular em Portugal” nos últimos seis anos sobre esta temática lusófila. Desta forma, pretende “debater os problemas típicos da identidade açoriana no contexto da Lusofonia”.
Avança pretender contribuir para o levantamento de factores “exógenos e endógenos que permeiam essa açorianidade lusófona e criativamente questionar a influência que os factores da insularidade e do isolamento tiveram na preservação do carácter açoriano”. Trata-se de debater a problemática da língua portuguesa no mundo em articulação com outras comunidades culturais, históricas e linguísticas lusófonas como agentes de mudança.
À margem do evento, Chris Chrystello acrescentou que o encontro visou “debater o problema da açorianidade no contexto da Lusofonia”. O facto deste se realizar na Lagoa, vai de encontro à sua intenção de “descentralizar”, salientou, acrescentando que Ponta Delgada é “macrocéfala”.
Trata-se de “contrapor” um pouco o que é feito a nível oficial. Têm sido feitos muitos congressos e encontros de açorianos, luso-descendentes, o que chama de encontros de família e amigos. “Vimos que podemos levar bastante mais longe a mensagem de que os Açores existem, que existe uma cultura e uma açorianidade própria e uma literatura própria. Temos trazido não só gente de Santa Catarina, que como todos sabem são descendentes de açorianos, mas de outros estados brasileiros, de outras regiões para conhecerem a realidade açoriana” – enfatiza. Segundo Chris, os Açores continuam a ser “tão desconhecidos como eram antes do 25 de Abril”. A maioria das pessoas com quem fala, como tradutor, não tem “a menor noção da existência destas nove ilhas, destas nove realidades distintas, nem de que existe uma literatura muito própria dos Açores”. “Estamos a constituir um léxico açoriano, dentro de um projecto que lançamos no II Encontro de Lusofonia, a Diciopédia da Língua Portuguesa que inclui um dicionário de açorianismo”- revela, avançando ter já “duas parcerias”, com a Universidade Mc Kensy de São Paulo e com o Instituto Politécnico, através da Escola Superior de Educação.
“Estamos à espera que o magnifico reitor da Universidade dos Açores se digne estudar a proposta que lhe foi feita na mesma altura” – declara, mencionando a falta de apoios da Universidade dos Açores.
“Gostava que a Universidade dos Açores tivesse sido anunciada, logo na sessão de abertura como um dos parceiros neste projecto”, que diz ter a “vantagem” de ser “megalómano”. Os intervenientes do encontro, diz, vêm “por sua conta e risco, não são subsidiados”, salientando serem uma organização “independente, subsidio-independente. Recebemos apenas um pequeno apoio da direcção regional das comunidades, que em nada nos afecta esta independência”. Aborda também o apoio logístico “magnífico” da câmara da Lagoa, que lhes proporcionou um “salto qualitativo, quer na apresentação de trabalhos”.
“É a primeira vez em todo o mundo que se entregam umas actas em livro no acto de registo e de acreditação dos oradores”- enfatizou. “As pessoas estão aqui, porque querem, não vêm fazer currículo, somos bastante informais, temos um relacionamento bastante bom. Criam-se laços impossíveis de criar em qualquer outra organização, em que o tratamento é formal”. Fazemos uma selecção bastante rigorosa dos trabalhos. É o que têm feito nos dez colóquios “ferozmente independentes”, mas sempre dispostos a aceitar parceiras e protocolos de colaboração, pois estão a crescer a uma velocidade “demasiado rápida” para uma organização voluntária da sociedade civil. Afirma funcionarem como uma organização não governamental (ONG), que tem como único propósito “irmanar todas as pessoas com a língua portuguesa em comum”.
Apesar disto, admite que a Lusofonia tem sido bastante “denegrida” em alguns sectores, o que considera “fruto de pessoas como aquelas que agora se opõem ferozmente ao acordo ortográfico e que sonham ainda com o quinto império. A língua é a única coisa que lhes resta, as colónias já se foram. Agarram-se a ela e querem ser os seus donos, porque, segundo eles, a língua foi originada em Portugal”, o que diz ser “mentira, estão errados. A língua foi originada na Galiza e se alguém pode outorgar a paternidade da língua são os galegos, mas as colónias e os quintos impérios já acabaram. Vivemos numa sociedade global, globalizante”.
Na sua opinião, os Açores estão muito divulgados dentro das comunidades, das novas gerações, mas Chris pretende levá-los a quem “nunca ouviram falar dos Açores”, como ele próprio “há uns anos atrás”.
Afirma ter encontrado na Região um povo “orgulhoso, cioso da sua língua e da sua cultura. Fala-se micaelense nesta ilha e é importante que seja ouvido, conhecido e falado. E acho que não está a ser feito o suficiente”.
Para Chrystello, “o grande mal dos portugueses, e afirma falar de uma perspectiva açoriana, é não darem valor à sua língua, à sua cultura. Tudo o que é estrangeiro tem mais valor do que o que é português” - lamenta, dizendo partir do princípio contrário. “Uma das coisas que mantive sempre bem viva nos anos em que estive na Diáspora foi a língua e cultura dos meus antepassados portugueses”.
Afirma prezar e ter bastante “orgulho” da língua e cultura portuguesas, defendendo que as pessoas têm de fazer isso. Os próprios brasileiros querem continuar a falar português, exemplifica, salientando que estes têm um orgulho “imenso” nas suas raízes.
“É bom que os portugueses um dia acordem, comecem a ter orgulho nas suas origens e preservem os poucos artífices e artesãos que ainda temos, que deviam ser considerados funcionários públicos, que deviam ser tratados em vez de estarmos a gastar em subsídios tantas vezes inúteis, a trazer pessoas que não vão dar mais-valia nenhuma, quando aquele homem é um verdadeiro exemplo da história dos Açores, um dos poucos que resta e que devia ser preservado em mantido”. Enquanto outros países preservam a sua história, “em Portugal, nem se consegue manter aquilo que ainda está vivo”.
A Austrália foi descoberta pelos portugueses, mas a maior parte das pessoas não “quer saber, não está interessada, não tem orgulho. Eu tenho imenso”. “Os portugueses não têm orgulho naquilo que são e foram e sendo assim estão condenados a continuarem na cauda da Europa, do mundo”- evidencia.
Fazendo um balanço, avança que além de uma proposta concreta, que farão para que a autarquia ou o governo regional “salve” o ferreiro da Lagoa, surgiu já uma contra proposta para uma petição em linha, não online, de “apoio ao acordo ortográfico, fruto das banalidades que têm sido ditas por algumas pessoas”. Pessoas “influentes” de quem, diz, esperava “bastante mais, como o escritor e Filósofo Eduardo Lourenço e tantos outros, que subscreveram o movimento contra”. Diz-lhes que “não sejam saudosistas”, o que diz não ser, pois tenta ver sempre “mais além e mais para o futuro”. Estes colóquios têm o condão de “desassossegar bastante” as pessoas e a “bola de neve” do acordo ortográfico não pára de crescer, argumentando ser “óptimo que se discuta e debata”. “Existe o perigo em Portugal de se tomarem decisões, sem nunca serem debatidas”. No caso do acordo ortográfico, avança ser um bocado “ridículo”, porque este já foi debatido, rectificado, faltando apenas ser publicado pelo Diário da Republica, após a aprovação de Cavaco Silva. “O que havia a debater, já foi debatido entre 1986 e 1990, já não há mais nada a debater. Haverá, sim, para o próximo acordo ortográfico e devíamos estar já a pensar nisso, em vez de estarmos a negar este, porque na altura as pessoas escolhidas decidiram e é o que está decidido. Se é bom, se é mau, não é a mim que me compete, porque não sou filólogo, não sou especialista da área, mas este é o que temos e é com este que vamos arrancar”. Se podemos fazer o próximo melhor, então é necessário começar a “estudar, a aninhar pessoas” para o próximo, que, acrescenta, irão por em vigor, pois “já três países o aceitaram, o formalizaram e vamos aproveitá-lo, para conseguirmos ainda manter a língua unificada”, pelo menos a nível gráfico.
Afirma serem uma organização da sociedade civil “orgulhosamente independente. O que nos move, é a liberdade de podermos discutir”.
“Esta liberdade diz muito a quem é da minha idade e a quem foi censurado na sua juventude. Logo o meu primeiro livro de poesia, foi cortado de 100 páginas para 32” - recorda, salientando que algo que “muito preza é a liberdade, que quer manter, a liberdade de pensamento, de discussão e a liberdade de podermos defender aquilo que é nosso, a língua e a cultura portuguesa, mas não é só nossa, é de todos aqueles que falam português, incluindo os ucranianos que já são cidadãos portugueses”.
Referindo-se às temáticas que podiam suscitar mais interesse no encontro, chama a atenção para o tema da “tradução”, como tradutor que é. “A tradução faz parte da preservação da língua. Se os nossos livros não forem traduzidos, a nossa língua perde-se, os nossos autores perdem-se”- explica, lamentando a “fraquíssima” penetração de autores portugueses nos mercados internacionais, à excepção de Saramago que conseguiu, “finalmente”, exceder um milhão de livros vendidos nos Estados Unidos, o que é perfeitamente notável para um autor português.
Quando cheguei aos Açores, há três anos nada sabia e muito tenho aprendido e falta-me ainda aprender muito. Uma das coisas que me chocou foi constatar o desconhecimento que havia de toda a gente, de todos os níveis, quer em Portugal, quer no estrangeiro sobre os Açores. Nós saímos da comunidade açoriana ou luso-descendente e ninguém sabe nada sobre os Açores. Mesmo que lhe falem das telenovelas, afirma que estas passam apenas “algumas imagens que, creio, eram passadas de várias ilhas e sem nexo”.
Diz não querer ser crítico de nenhum governo, de nenhum governante, o que quer dizer é que não foi feito o suficiente para dar a conhecer os Açores, o que considera uma “motivação óptima” para realizar estes encontros. E são estas sinergias que nós criamos entre as pessoas, vão permitir que os Açores sejam falados em sítios para além de Santa Catarina, do Canadá, dos Estados Unidos e das comunidades portuguesas lá.
Falando na possibilidade das questões da Lusofonia terem um maior peso para os emigrantes, afirma que “os açorianos em geral mostram mais orgulho na sua língua e cultura, do que a média dos portugueses continentais”. Os emigrados têm uma percepção bastante “profunda” e tentam manter tradições com mais força do que as outras comunidades emigradas. “O açoriano ainda tem uma ligação nuclear, com a família nuclear, uma característica de religiosidade, que já se perdeu no continente e na maior parte dos países” – reconhece, salientando que estes carregam essa cruz e vivem-na de uma forma “bem intensa”.
“Para mim, é quase uma viagem ao passado, a Portugal de 30 ou 40 anos” – enaltece, avançando que existem “coisas que se passam aqui e que no continente já não acontecem há 30 ou 40 anos”. Alerta não estar a dizer que são boas ou más, mas “aspectos importantes da cultura e talvez estejam a perder fruto das novas gerações, da emigração dos mais novos, dos próprios inter-casamentos”. Se será possível levar esse peso para as próximas gerações, essa é uma dúvida que o “assola sempre”.
“Será possível preservar algumas coisas, nem que seja só o folclore, mas isso também é importante. O importante é que as pessoas meditem naquilo que é verdadeiramente importante e que se está a perder, como as velhas tradições”.
Daniel de Sá foi o primeiro autor com quem tomou contacto como tradutor, recorda, acrescentando que além de ser habitante da costa norte, como Chris, e di-lo com “muito orgulho”, considera que os habitantes da costa norte têm um certo “sentido de independência em relação a esta macrocefalia da costa sul, são mais rebeldes, são mais selvagens e não gostam de ser dominados por este centralismo político”. Além disso, revela que a sua obra toca-o “profundamente”, argumentando que este consegue exprimir, “de uma forma simples, estados de alma que eu gostaria de saber exprimir da mesma forma”.
“Tem sido um desafio titânico transcrever para outra língua estados de alma, cores, sabores, que emanam da sua escrita e tem sido um desafio interessantíssimo que faço comigo mesmo”-sublinha, esclarecendo que a hipótese de um tradutor trabalhar com o autor cria, por vezes, “magias e subtilégios que são raros de conseguir”.
“Normalmente, o tradutor trabalha sempre longe do autor e, muitas vezes, sem possibilidade de contacto. Neste caso, o tradutor e o autor conjugaram-se para o produto final. É a melhor tradução que podemos ter”.
O genocídio linguístico é um dos seus temas favoritos, que aborda sempre, porque as pessoas esquecem-se que “morre uma língua em cada quinzena”. Assim como o português estará condenado, quem sabe quantas outras línguas não estarão condenadas da mesma forma, questiona-se, avançando ser uma forma de “alertar as pessoas que mais do que a biodiversidade estar afectada, a diversidade linguística está muito mais afectada, só que nós não a sentimos. Sentimos a inflação, o preço dos combustíveis a subir, mas a perda das línguas não”.
Afirma ser “contra qualquer forma de acordo”, pois é “muito anarquista”, não gosta de “decisões governamentais”. Considera-se “um puro democrata e acho que a língua não se faz por decreto, mas têm de haver normas e este acordo, bom ou mau, é o que existe, e é de ir para a frente. Se for para corrigir, corrija-se depois. Para já, vamos por este a funcionar e ver se retiramos alguns dividendos dele sem o perigo de perder a nossa musicalidade. Somos práticos, o que nos interessa é salvaguardar a língua portuguesa e uma ortografia unificada”.
“Acordos e decretos, nunca, sejam eles quais forem, porque não gosto do poder divino, o que chamamos top down, irrita-me bastante. A língua é feita pelo povo, que a tem moldado ao longo dos séculos, sob a condução de alguns académicos e linguistas, mas o povo é que fará, ou não, este acordo ortográfico vingar. Mas como sou pragmático e a língua portuguesa é a minha herança, sou totalmente a favor deste acordo”. Aproveita ainda a ocasião para dizer que as pessoas não vejam a Lusofonia, como um encontro elitista, pois todos são “bem-vindos”.

Raquel Moreira
Public in Terra Nostra, Maio de 2008.

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