quarta-feira, 15 de outubro de 2008

O feed-back do público é "combustível"

Ménito Ramos

Estar perante milhares de pessoas, apesar de poder ser "intimidante", é acima de tudo algo "estimulante e gratificante", especialmente quando tem o "privilégio único" de ouvir milhares de vozes a cantarem também canções que ele próprio escreve e que são "fruto da sua imaginação e das suas vivências pessoais". Para Ménito Ramos, saber que o seu trabalho pode influenciar a vida de muitas outras pessoas é "combustível" mais do que suficiente para querer continuar. A vida é para ser vivida, "um dia de cada vez".



"Quero adormecer" (da novela "Tu e Eu") e "Se um anjo te levar" (do par romântico Nalini e Salvador, da novela "Fascínios") são alguns sucessos deste jovem cantor e compositor, que compõe para várias produções e artistas nacionais, nomeadamente para Beto. Ménito Ramos, cantor e compositor, conta que nasceu a 4 de Março de 1974 no Luxemburgo, onde viveu até aos sete anos de idade. Mas como verdadeiro filho de pais portugueses, vinha "anualmente" a Portugal de férias, até que aos sete anos veio para ficar.
Iniciou-se no mundo da música aos "nove anos" de idade como teclista, junto com os pais numa banda que actuava em bailes. Por volta dos 18 anos, já tocava em alguns dos míticos bares de música ao vivo em Lisboa e fazia "direcção musical" para alguns artistas do panorama musical da altura. Um pouco mais tarde, começou a fazer as suas "primeiras experiências num pequeno estúdio que construiu em casa" e, algum tempo depois, recorda, surgiram os primeiros convites para trabalhar como "orquestrador/arranjador" de outros produtores, já ligados à produção discográfica de topo.
Mas logo nas primeiras sessões de estúdio percebeu com toda a clareza que era esta a carreira que pretendia seguir, "enquanto a vida lhe permitisse". O facto é que em pouco tempo, surgiram os primeiros convites, para além de arranjos em álbuns, assumir também a respectiva produção. O que, afirma, tem sido uma "viagem alucinante em constante aprendizagem".
A produção, a composição e o canto, diz serem trabalhos "bastante diferentes", pois enquanto em estúdio "procuram" o 'take' certo e adequado, "independentemente do tempo que demore", no palco dispõem de "apenas uma oportunidade" de fazer o 'take' certo. Mas junto com o "risco de falhar, vem a adrenalina", salienta. Ao saber que "partilha" esse risco com músicos em palco, Ménito cria uma "nova oportunidade" de improviso, o que o leva novamente a "alimentar o ciclo da criatividade e inspiração" de cada um. Isto, "mesmo quando não se faz o que era suposto fazer".
Estar perante milhares de pessoas, apesar de poder ser "intimidante", diz ser acima de tudo algo "estimulante e gratificante", reconhece, especialmente quando tem o "privilégio único" de ouvir milhares de vozes a cantarem também canções que ele próprio escreve e que são "fruto da sua imaginação e das suas vivências pessoais". Saber que o seu trabalho pode influenciar a vida de muitas outras pessoas, é, enfatiza, "combustível" mais do que suficiente para querer continuar.
A parceria com Beto surgiu, relata, quando Ménito o convidou para participar no seu primeiro álbum intitulado "Finalmente". Até porque são vizinhos e "partilham imensas influências musicais". Beto aceitou o convite e cantaram em dueto a balada "Quero adormecer".
Por ter apreciado o seu trabalho e o que ouviu de Ménito na altura e,, estando a gravar o seu primeiro álbum a solo, "Olhar em frente", Beto convidou-o a escrever alguns temas. Ménito escreveu três temas, um deles um "enorme" sucesso. Falamos de "Memórias Esquecidas", o primeiro single do álbum.
A partir dessa altura, Ménito passou a trabalhar em "todos" os álbuns do Beto, inclusive o mais recente, "Por minha conta e risco", lançado há poucos meses. Este foi integralmente escrito e produzido por Ménito, que tem também uma participação especial, como intérprete, em dueto com Beto no tema "Não basta o teu olhar" e que o considera "inevitavelmente" um álbum muito especial e pessoal.
Para além desta parceria discográfica, os dois músicos têm também um projecto em que se apresentam em concertos ao vivo e em dueto, com músicas dos repertórios de cada um. Um projecto que lhes tem dado "imenso prazer" desenvolver.
O álbum "Finalmente" foi fundamental, dado que foi o primeiro, mas era a seu ver "pouco coerente" a nível musical, pois Ménito gravou-o pela "necessidade de explorar e pesquisar" áreas diferentes.
De qualquer forma, foi um álbum que o ajudou a "perceber" o caminho a seguir no futuro e onde contou com a participação de uma lista "enorme de músicos únicos e geniais", que com Ménito partilharam o seu talento.
Do álbum "A noite grita por mim" destaca-se o tema com o mesmo título, que fez parte da banda sonora da novela "Mundo Meu". Esta, recorda, foi uma das primeiras músicas que o fez sentir a tal sensação "fantástica" de ouvir milhares de vozes a cantar em uníssono consigo e, admite, será sempre um tema "muito importante" na sua carreira.
Quanto à sua participação em bandas sonoras de telenovelas, a oportunidade surgiu de um convite para escrever e produzir um tema, que acabaria por fazer parte da primeira série de "Morangos com Açúcar". Escreveu "O Mundo não acaba aqui" e, a titulo de "maqueta", enviou o tema que ele próprio cantou, relata.
"Ironicamente, o tema agradou de tal forma que foi aceite de imediato e quando voltei a ouvi-lo, foi já na televisão, integrado na banda sonora da série e nem cheguei a acabar a sua produção"- esclarece.
A primeira experiência correu muito bem, reconhece, e os responsáveis pela escolha dos temas para as bandas sonoras começaram a lançar-lhe desafios, no sentido de escrever "especificamente" em função das novelas, da história e das personagens. Trabalho que avança dar-lhe um "enorme prazer" e que lhe permitiu continuar a participar na maioria das novelas, dos últimos 5 anos.
Segundo o cantor, tudo o que nos rodeia pode ser "motivo" de inspiração, ressalva, indo desde as suas vivências pessoais à vivência pessoal de um amigo. Outras vezes, "simplesmente" deixa-se levar pelo seu imaginário, que reconhece poder conduzi-lo a locais "inimagináveis", onde a sua imaginação e criatividade não têm "barreiras nem limites".
Já tinha ido dar um concerto à ilha de São Jorge, mas na verdade lamenta nunca viajar "com tempo", para conhecer os sítios por onde passa. Mesmo assim, "o arquipélago dos Açores é um daqueles locais deste nosso planeta, que foi contemplado com tamanha beleza e riqueza natural, que não basta uma pequena viagem para o ficar a conhecer. De qualquer forma, o pouco que tive o privilégio de ver, foi realmente fantástico"- acentua, avançando ter sido também "especial", a forma como sempre foi recebido. De tal modo que ficou com a enorme sensação de querer "voltar", o que espera que aconteça em "breve".
Define-se como alguém que tem o privilégio de fazer o que sempre "sonhou" fazer, que aprecia a vida e que a vive "um dia de cada vez", como se fosse o último.
O que mais gosta nas pessoas é a "integridade, a honestidade e a sinceridade". Por outro lado, não gosta de "hipocrisia e de falsidade".
Na sua opinião, a música portuguesa vive actualmente um período muito "complicado", pois devido à "pirataria, à venda ilegal de cds copiados e não originais e aos downloads ilegais", os álbuns originais acabam por não vender o suficiente para "rentabilizar" o investimento feito na produção de um álbum, o que, a curto/médio prazo, conduzirá uma grande parte das editoras e artistas/profissionais da música à "total extinção".
"Não deixa de ser irónico, as pessoas condenarem à extinção os artistas de que mais gostam e cujos trabalhos mais apreciam. Porque apesar de as músicas fazerem sucesso, os álbuns originais não vendem proporcionalmente ao sucesso das músicas, e não rentabilizando o investimento, não se pode gravar um próximo álbum"- salienta.
Segundo Ménito Ramos, as maiores dificuldades de um artista em inicio de carreira em Portugal, prendem-se com a dificuldade em "apresentar e promover" os novos projectos. É difícil encontrar uma editora disposta a fazer o "investimento" necessário para promover um novo projecto e para o levar ao grande público, uma vez que, cada vez mais, acentua, a pirataria "limita" as capacidades de investimento das editoras. Sim, porque o "prejuízo é quase garantido", ainda que os álbuns e as músicas tenham sucesso.
A nível de televisão, o músico argumenta existirem actualmente "poucos" programas que promovam com o devido "destaque" os vários trabalhos musicais. Além disso, há "pouco tempo de antena dedicado inteiramente à música e são poucos os programas de televisão em horário nobre, que se dediquem inteira e exclusivamente à música, como antes havia alguns".
Referindo-se às rádios, afirma que "algumas" cumprem o seu papel na divulgação da música portuguesa, mas outras nem por isso. O artista vai ainda mais longe ao dizer que algumas rádios nacionais, limitam-se a passar os mesmos "5 ou 6 artistas de sempre". E a lei das quotas de música portuguesa "não mudou nada" nesse sentido, apenas fez com que essas mesmas rádios passassem "mais músicas" dos mesmos 5 ou 6 artistas de sempre, critica.
A seu ver, o artista tem "responsabilidades sociais e deve tomar posições", sempre em função das suas "crenças e convicções" sociais e pessoais.
Em termos futuros, Ménito Ramos pretende continuar a fazer aquilo que sempre quis fazer, música. Tem também de cumprir com vários compromissos profissionais que assumiu, nomeadamente a nível de produção/composição. Logo que isso aconteça, o objectivo é começar a projectar "novos desafios", pois não gosta de estar "parado". Mas como sempre, sublinha, "um dia de cada vez".
A banda de Ménito Ramos integra Mauro Ramos (baterista); Gonçalo Pereira (guitarrista); Miguel Camilo (guitarrista) e Dikk (baixista).
É de destacar, no seu primeiro álbum, a participação "em dueto com Ménito Ramos" de duas grandes vozes da música portuguesa, como Beto e Sónia Costa, que de uma forma única e pessoal contribuíram com as suas "vozes, a sua amizade e apoio incondicional".
Em 2005, Ménito Ramos lançou o seu 2º álbum de originais, de onde se destaca o single "A noite grita por mim", tema que deu nome ao álbum e que em pouco tempo se tornou um enorme sucesso em todo o país e nos tops das rádios locais. Um álbum onde Ménito Ramos, como produtor, músico e cantor pôde expor as suas variadas influências e, ao mesmo tempo, trabalhar com alguns dos melhores músicos portugueses, recebendo destes o seu precioso contributo musical. "Grandes Baladas", o mais recente álbum de Ménito Ramos, entrou para o TOP 30 de vendas nacionais, após duas semanas da sua entrada no mercado discográfico, onde se mantém até agora.





Raquel Moreira




Public in Terra Nostra, Outubro de 2008.

Uma musica para todas as idades!


João Andrade

O gostar, ou não, de música clássica “depende um pouco das pessoas”. Há quem tenha essa parte mais “natural de gostar. Gosta à primeira e vai descobrindo” este estilo. É acima de tudo, uma questão “cultural” e todas as pessoas devem ter “acesso e devem apreciar a música clássica”. Segundo João Andrade, “há quem diga que a música clássica é só para alguns, para quem a entende, mas com um bom músico qualquer pessoa a pode apreciar em “qualquer idade”.


João Andrade é natural de Ponta Delgada e estuda no terceiro ano Academia Nacional Superior de Orquestra em Lisboa, com o professor Aníbal Lima. “Estudei no Conservatório até ao 8º grau, terminei com 19 valores e depois concorri para a Academia”, onde foi admitido em “primeiro” lugar. Afirma que gostava de continuar a estudar, mas desta vez no “estrangeiro”, talvez nos Estados Unidos.
Tinha “8/9 anos” quando se começou a interessar por música, relata, avançando que um dia assistiu a um concerto da Vanessa Mae na televisão, em que ela só estava acompanhada de orquestra. “Adorei, pedi aos meus pais para aprender violino e eles inscreveram-me na Academia de Musica da Ribeira Grande, onde estive cerca de quatro meses”. Quando fez 10 anos concorreu para o Conservatório, entrou e foi lá que continuou com Célia Ross, sua professora até ao 8º grau.
Referindo-se à entrada para a Orquestra Metropolitana de Lisboa, João conta que tinha feito alguns cursos no continente, principalmente com Gerardo Ribeiro. Um “excelente violinista e professor” que sempre o acompanhou como se fosse o seu “mentor”. E foi Gerardo quem lhe indicou, recorda, o professor Aníbal Lima e a Academia nacional Superior de Orquestra, por ser considerada a mais conceituada escola em Portugal, onde foi admitido com a “melhor classificação”.
O gostar, ou não, de música clássica, argumenta, “depende um pouco das pessoas”. Há quem tenha essa parte mais “natural de gostar e goste à primeira, vai descobrindo”. Mas acima de tudo, considera ser uma questão “cultural”. Na sua opinião, todas as pessoas devem ter “acesso e devem apreciar a música clássica”, que é um “bem” acessível a todos. “Há quem diga que a música clássica é só para alguns, para quem a entenda, mas com um bom músico qualquer pessoa se pode aperceber e apreciar”- acentua.
Há vários estilos de música e vários “estados de espírito” e conforme a pessoa se sente, esta “escolhe” um, que lhe seja mais adequado na altura. É tudo perfeitamente “adaptável”.
A pessoa pode começar a gostar em “qualquer idade”, sublinha lembrando haver pessoas que despertam “mais cedo”, do que outras. Mas, hoje em dia, de uma forma geral, salienta, vemos que “independentemente” do estilo ou do género, os jovens e todas as pessoas têm um sentido musical “mais apurado” e sempre gostam de algum estilo.
“Há pessoas que pensam que música clássica é só Strauss, Mozart e Beethoven, mas não. A música clássica é muito mais abrangente”- esclarece, acrescentando que quem conhece a história da música, sabe que esta tem vários “períodos”, tal como a pintura. Há música clássica, barroca, romântica.
Quanto a artistas de referência, o violinista aponta ter vários no meio musical erudito, como a violinista norte-americana Hilary Ann e Maria João Pires, entre outros. Mas diz não ter nada “estereotipado” que goste mesmo de ouvir. Fora da música clássica, gosta de Evanescence e de Jorge Palma, por exemplo.
Procura estudar o “máximo possível, no mínimo quatro horas por dia”. O músico aproveita também para dizer as pessoas julgam que ser violinista é pegar no violino e tocar, mas são precisos “muitos anos de estudo, bons professores e um bom ambiente”. Além da música, diz gostar de sair com os amigos e de ler “romances históricos”. Gostou de ler também “Anjos e Demónios” de Daniel Brown, que considera ainda melhor do que o “Código da Vinci”.
Recentemente, foi “concertino assistente” do segundo estágio da Orquestra Sinfónica Académica Metropolitana e inaugurou a temporada do Centro Cultural de Belém, em Lisboa; do D. Vitória e; da Casa da Música, no Porto.
Em termos de projectos, o músico revela que se irá apresentar ainda este ano em França e a Malta, numa digressão com a Orquestra Académica Metropolitana. Em Novembro, João Andrade irá apresentar-se no Teatro Micaelense num “recital de violino e piano” e mais tarde deverá prestar “provas no estrangeiro”.
Biografia
É natural de São Miguel e iniciou o estudo do violino aos nove anos na Academia de Música da Ribeira Grande. Isto, depois de ter descoberto um ano antes, ao ver um concerto da violinista Vanessa Mãe, que o seu sonho passava, inevitavelmente, pela música, que é para este jovem uma procura do saber. João Andrade confessa que, a partir daquele momento, ficou "literalmente preso à performance e encantado com tal som".
A família sempre o apoiou e alertou para as dificuldades que iria encontrar ao longo de todo o percurso. No entanto, o seu talento a par da sua força de vontade foram decisivos e cedo se destacou entre os seus pares, conseguindo terminar, em 2006, o 8º grau de violino, com a classificação final de 19 valores. Em Maio de 2006, fez provas de admissão para a Academia Nacional Superior de Orquestra, em Lisboa, concorrendo com jovens de todo o País, onde foi admitido em primeiro lugar, ocupando, desta forma, a única vaga existente na classe do professor Aníbal Lima.
Para João Andrade, a música é algo por que vale muito a pena lutar, pois permite-lhe ter momentos que as pessoas alheias a este mundo não poderão nunca ter ou sentir. Com uma notória sede de aprender, o jovem músico revela que a sua grande dificuldade foi ultrapassar a insularidade, que na sua opinião pode ser prejudicial, principalmente numa área onde há falta de oportunidades e informação. "Só através do contacto com outros músicos é que nos podemos desenvolver".
Actualmente, encontra-se em Lisboa, no segundo ano da Licenciatura em Instrumentista de Orquestra, violino, na classe do professor Aníbal Lima. Integra a Orquestra Académica Metropolitana e dá concertos nas principais salas da capital, tendo inclusive feito diversas digressões em Espanha e na Bélgica.
De momento, o único desejo de João Andrade é estudar e conhecer o máximo que puder, de tudo o que puder, "ser melhor todos os dias e evoluir".
Ao longo de oito anos, foi acompanhado por vários professores, de diferentes nacionalidades, e em diversas disciplinas como, por exemplo, Música de Câmara, Formação Musical, História da Música, Análise e Técnicas de Composição ou Acústica e Piano, como 2º instrumento. O jovem violinista tem frequentado vários Master Class e, desde o ano de 2005, durante o Verão, vem sendo admitido na Meadowmount School of Music, em Nova Iorque, nos EUA, através de bolsas atribuídas pelo Governo Regional dos Açores. Em 2007, foi um dos vencedores do Concurso Anual de Música de Câmara, interpretando o Quarteto op. 95, em Fá Menor "Serioso", de Ludwig van Beethoven.


Raquel Moreira

Public in Terra Nostra, Outubro de 2008.

Há falta de cultura!

Álvaro Raposo França

Algumas pessoas dão o devido valor à arte, mas o número é bastante "restrito". E "infelizmente, existem "muitos responsáveis públicos" que optam pelo "mais barato", o que considera ser "falta de cultura". O pior é que irá passar muito "tempo", até que se denotem mudanças positivas neste contexto. Segundo o escultor Raposo França, os professores de Educação Visual também têm "muita responsabilidade" nesta área, avançando que quando leccionava, a sua preocupação "não era criar artistas". Quem não tenha jeito para desenho, pode "apreciar", pois "as pessoas para gostarem de uma coisa não precisam de saber fazê-la".

Desde pequeno que gosta de modelar e tudo começou quando o pai lhe deu um pouco de barro, quando se encontravam de férias nas Furnas.
Nasceu em Ponta Delgada e, em 1960, foi estudar para a Escola Superior de Belas Artes do Porto em 1960, curso que terminou cinco anos depois. Leccionou no ensino secundário até 1989 e acabou por ir para formador de Belas Artes em Lisboa, onde ficou até se reformar. Mas "paralelamente" a essa actividade lectiva, sempre trabalhou em escultura.
A sua primeira exposição individual, recorda, foi em 1972 no antigo Colégio do Infante. Antes já tinha exposto, mas em conjunto (desde 1961), na escola do Porto e depois com colegas em "vários" locais.
O interesse pela escultura surgiu desde "muito cedo", pois apesar de ainda não saber se seguiria esta área, "sempre gostou muito" de modelar.
"Tinha 5 ou 6 anos e estava a passar férias nas Furnas, quando o meu pai me deu um pouco de barro para eu estar entretido. Comecei a moldá-lo, gostei e ao contrário da maioria dos miúdos que, aos 12 ou 13 se anos, se desinteressam por moldar barro ou plasticina, eu continuei a gostar e ainda hoje gosto de mexer em barro e modelar"- acentua.
Referindo-se à sua exposição que se encontra patente no Centro Municipal de Cultura até 26 de Outubro, o artista conta que o primeiro trabalho é de 1999, sendo esta composta por peças realizadas num espaço de "quase 10 anos".
Em simultâneo com a escultura, Álvaro Raposo França lembra ter outras actividades de escultura, como "encomendas de bustos e estátuas", peças que desenvolve nos seus "tempos livres". Mas, sublinha, o artista não considera a escultura como um "passatempo". Esta é, sim, quase uma "obsessão, porque todos os dias faz qualquer 'coisa', nem que seja desenhar, imaginar ou por uma ideia em prática".
A mensagem que pretende transmitir afirma estar "implícita" nas suas obras, avançando preferir que as pessoas a "descodifiquem". Neste contexto, explica, a mensagem surge através da "volumetria" da escultura, neste caso.
Questionado sobre o que o leva a ter uma ideia para uma peça, o escultor afirma não acreditar muito na "inspiração", avançando que esta tem "muito" que se lhe diga. A seu ver, a ideia surge do próprio trabalho. "É como comer cerejas, começa-se a comer e nunca mais acaba"- salienta, acrescentando que "cada ideia faz surgir outras" e assim sucessivamente, pois trata-se de uma "corrente continua". Além disso, argumenta, se a pessoa trabalhar "sempre", a inspiração existe. Mas se parar, o indivíduo fica a "olhar para a lua à espera que a inspiração" chegue, o que desconfia que aconteça. A escultura é para si uma "obsessão", mas "no bom sentido". É quase tão "normal, como comer e respirar, é algo natural".
Diz gostar de todas as suas peças, mas selecciona a "Ginasta da Fita", uma das primeiras e a que "talvez" tenha mais "impacto", defende.
A cor na escultura é algo que "sempre" existiu, explica. Na escultura clássica não havia cor, revela, mas com os gregos e os egípcios as pedras tinham cor e estes chegavam mesmo a "pintar o bronze". Aliás, há escultores "contemporâneos" que pintam as suas peças, salienta, avançando ser geralmente "muito sóbrio" no que toca às cores. Não costuma pintar, partindo do próprio bronze. E quando são outros materiais, como o ferro, geralmente pinta as peças de "vermelho ou amarelo", cores mais "chamativas". É quase como "sublinhar uma frase a vermelho", para se ver melhor.
Quanto à situação actual da arte, o escultor afirma que "algumas" pessoas lhe dão o devido valor, embora em número bastante "restrito". Aproveita também para dizer que, "infelizmente, há muita gente que não lhe dá valor", acrescentando que aqueles que se espera que valorizem a arte, "não" o fazem.
O artista vai anda mais longe ao afirmar existirem "muitos responsáveis públicos", que optam pelo "mais barato" e vão buscar artistas ou fazedores destas coisas (pode ser arte ou não), o que considera ser "falta de cultura". E, lamenta, passará muito "tempo", até que se denotem mudanças positivas neste contexto.
Por outro lado, o ex professor reconhece que os professores de Educação Visual também têm "muita responsabilidade", nesta área. Quando estava a leccionar no secundário, sublinha, a sua preocupação "não era criar artistas". Os alunos diziam não ter jeito para o desenho, mas "podiam apreciá-lo", justifica, acrescentando que "as pessoas para gostarem de uma coisa não precisam de saber fazê-la". Falando de si próprio, Raposo França revela gostar muito de ouvir música, mas não pensa tocar nem cantar. O mesmo acontece, com as artes visuais.
A nível das escolas, o incutir um sentido estético nos alunos, é algo que segundo o artista tem de ser feito, mas é um processo que dura "gerações". Ainda há pouco tempo, recorda, havia "muito poucos" professores formados em Educação Visual.
Os curiosos é que davam aulas, revela, lembrando-se que certo dia lhe disseram que seria o professor de "matemática" a dar a aula de Educação Visual. Isto, para "desanuviar um bocado e para não sobrecarregar os alunos com muitas horas de matemática". E num contexto destes, as 'coisas' "não funcionam". Actualmente, o escultor espera que isso já não aconteça, pois sabe que tudo evolui, apesar de ser "devagar".
Estatuário é das áreas em que mais gosta de trabalhar no campo da escultura (peças grandes), porque "dá outra liberdade". Começa por fazer uma peça pequena, que depois é ampliada e aí, já pode "antever" como esta irá ficar. E há uma "simplificação" dos volumes, de superfícies e de espaços, o que é um "desafio interessante".
"Não é pegando num 'bibelot' e pondo-o em ponto grande, que ele vai resultar. A peça que tem ser pensada para ser grande e é dos desafios que gosto mais, embora não se possa estar sempre a fazer estatuário, só vez em quando"- esclarece.
Diz não contabilizar o máximo de tempo que leva a fazer uma peça, mas também já fez uma peça num dia só. Isto, relata, quando fez as provas para professor na Faculdade de Belas Artes. Uma das provas consistia em tirar um tema à sorte e em "oito horas" desenvolvê-lo, em barro ou outro material provisório. "Calhou-me o tema da mudança", algo que, admite, dá muito que falar, pois a própria vida é feita de mudança. Representou o tema através de três mulheres, "uma nova, uma de meia-idade e uma mais idosa", havendo um diálogo entre elas. A peça, tem-na "passada a bronze", mas, hoje, ressalva, não representaria o tema da mesma forma.
Em termos de projectos, avança estar a trabalhar em "algumas" peças, que ainda não estão prontas para serem vistas. Raposo França aproveita para dizer aos açorianos que "visitem a exposição".




Raquel Moreira



Public in Terra Nostra, Outubro de 2008.

Um açoriano de sucesso!


Bruno Medeiros

Venceu o Concurso das Profissões a nível regional na área de Carpintaria, o que o levou directamente a Aveiro para a prova nacional, de onde também saiu vencedor entre quatro concorrentes. Os mundiais, realizados em Helsínquia, valeram-lhe também o primeiro lugar, o que “foi muito bom”. Quando representou Portugal a nível europeu, em Roterdão, Bruno Medeiros, foi também o número um. Foi tudo muito “rápido”, relembra, e teve apenas “uma semana” de preparação, mas “sempre" gostou desses "desafios”.


O seu percurso de vida é marcado já por várias vitórias, desde as provas regionais até ao mundial, o que o deixa “muito feliz”. Bruno Medeiros é natural do Cabouco, concelho da Lagoa e tem 22 anos. Desde pequeno “sempre” gostou de trabalhar em madeira, “pregar pregos e fazer cancelas”. Quando terminou o 9º ano, decidiu estudar na Escola profissional das Capelas, onde fez formação na área de Carpintaria. “Tive um curso de qualificação de um ano, depois fiz o estágio e fui trabalhar para a Ribeira Grande, onde já estou fez cinco anos em Setembro passado”- esclarece.
Referindo-se ao Concurso Nacional das Profissões, o jovem conta que a Escola Profissional das Capelas o convidou a participar no concurso regional, onde obteve o “primeiro lugar, entre quatro concorrentes”. Em 2003, participou no concurso nacional em Aveiro, onde participaram, também um alentejano, um madeirense e um concorrente da zona centro. Conseguiu “novamente” o primeiro lugar, recorda, reconhecendo que foi “muito bom” ser considerado o “melhor português”.
O facto de ter ficado em primeiro lugar, explica, levou a que tivesse direito a participar nos mundiais que ocorreram em 2005, a Helsínquia, na Finlândia. Isto, com 19 anos de idade. Mas claro que, sublinha, antes de ir a Helsínquia teve “dois meses” de preparação. A prova correu-lhe bem, confessa, lembrando que recebeu também um certificado de trabalho, com nota “Excelente”. A escala é de ‘0’ a ‘600’ pontos, esclarece, e, quem obtém mais de 500, recebe medalhões de trabalho excelente, tal como existem outras medalhas a nível mundial. Entretanto, surgiu uma proposta para representar Portugal a nível europeu, em Roterdão, na Holanda. Proposta que aceitou de imediato, pois “sempre gostei desses desafios”. Afirma ter sido tudo “muito rápido”, de modo que teve apenas “uma semana de preparação”, no continente.
Quanto à prova, esta consistia em fazer uma porta e foi realizada em dezoito horas, divididas em três dias e “correu-me muito bem”. Bruno Medeiros ficou novamente em “primeiro” lugar, desta vez entre oito concorrentes. “Fazíamos o pranteado, o desenho da prova, que tinha que ser entregue no fim do primeiro dia para ser avaliado. No segundo dia, tivemos a concretização de uma porta com arco em cima, que tinha de ficar pronta, armada, colada e com os acabamentos terminados”- recorda, avançando que antes de se armar a porta, esta foi toda “avaliada, inclusive os pormenores de encaixe”. No terceiro dia o trabalho consistia em fazer uma “janela basculante, para ser adaptada” à porta.
Como já tinha “alguma” experiência dos concursos anteriores, no fim das provas cada um “olhava” para os trabalhos dos outros e, claro, sempre encontrava uns “melhores” do que outros. Na cerimónia de encerramento, Bruno Medeiros afirma ter ficado “muito feliz”, por ser campeão europeu, o que, admite, “não se consegue num abrir e fechar de olhos”.
Tanto a família como os amigos, diz estarem todos muito “satisfeitos” e acrescenta que lhe têm dado parabéns, “muitas” vezes.
Na sua ida para o campeonato europeu, resolveu que não irá continuar na empresa onde se encontra a trabalhar actualmente. “Aprendi muito mesmo e abri muito os olhos, mas só lá fico até 21 de Novembro””, explica, pois já tem outra “proposta” de trabalho na Região, de alguém que já o conhecia e “sempre” gostou do seu trabalho. Questionado sobre uma eventual ida para o estrangeiro, Bruno afirma que gosta muito de estar “perto da família”, mas tudo iria “depender” da proposta em si.
“Planeio também dar formação e sempre tive o sonho de ter o meu próprio negócio”- revela. Diz estar em fase de “estudo”, tendo chegado mesmo a discutir o assunto com Rui Bettencourt, director regional do Trabalho e Qualificação Profissional, que logo lhe indicou a “possibilidade” de fazer o curso de formação para formadores.
A quem pense seguir a via profissional, o jovem aconselha as pessoas a “acreditarem” nas escolas profissionais, pois “aprende-se muito”.


Raquel Moreira

Public in Terra Nostra, Outubro de 2008.

quinta-feira, 9 de outubro de 2008

O livro é um abrir de expectativas


Workshop de Banda Desenhada

Nos Açores, a banda desenhada “não está muito divulgada”, há apenas “casos pontuais”, mas no continente há uma “gama muito boa” de jovens a trabalhar nesta área. Gosta de fazer as letras “manualmente” e utiliza o Powerpoint apenas como “apoio”. Caso contrário, José Ruy, desenhador, defende que chega a um ponto em que já “nem sabe se continua a ter arte ou é a máquina que a faz”. O computador é na sua opinião o “terminal dos jogos e afasta-os um pouco”do livro, que deve ser bem analisado antes de ser escolhido, não pela “cor da capa”.

O livro é um bem precioso e nem o computador o pode substituir. José Ruy, desenhador, nasceu em 1930, na Amadora, e dedicou-se à banda desenhada, ou melhor “histórias em quadrinhos”, como gosta de dizer.
Referindo-se ao workshop, conta que tudo começou com um “convite” de Luís San-Bento, director da Biblioteca Publica da cidade da Horta, para lá ir e fazer umas sessões. Já tinha estado várias vezes na Horta, para o lançamento de livros como “A ilha do futuro” e para realizar sessões nas escolas, altura em que conheceu o director da biblioteca.
Segundo José Ruy, trata-se de uma “explanação”, da sua experiência neste campo, que aborda questões como as “origens” da banda desenhada e, a diferença entre banda desenhada e histórias aos quadrinhos. Isto, passando pela sua “estrutura, as proporções e a técnica” até à planificação das histórias. Por exemplo, é fundamental saber se é a adaptação de um romance, uma história inventada, ou baseada em documentação histórica.
Depois, vem a “composição” de cada vinheta, que por sua vez irá compor toda a prancha, a cor e, a “rotulação” (o desenho das letras nas legendas, nos balões).
Não menos importante, é saber como utilizar o “modelo vivo” do melhor processo para ser original, em que se desenha “directamente num modelo que tem atitudes, expressões e que é uma base para se trabalhar”, sem o recurso a fotografias ou a trabalhos já realizados por outros, coisa que, alerta, “não se deve fazer”.
Outros pontos importantes são o trabalhar as histórias, no caso de haver outras “versões” noutras línguas, e o “equilibrar” dos espaços de texto.
O workshop dividiu-se em duas horas de manhã e outras duas horas à tarde, durante cinco dias. Claro que em tão pouco tempo, reconhece, “não é possível” ensinar a desenhar, mas ensina-se a “manusear a linha de pesca”.
Referindo-se ao público-alvo, lembra que este foi desde os 12 anos até aos adultos.
A “sequência” também é fundamental, pois quando se desenha a lápis faz-se uma construção, cobre-se a tinta e essa construção “desaparece”. Inclusive, o lápis que está a mais é “apagado” e depois é posta a cor em cima, logo há fases que vão desaparecendo na sequência do trabalho.
“Através do Powerpoint, apresentei as diversas fases do processo antes de serem sobrepostas, o que explica a evolução do trabalho desde o papel em branco até à arte final”- esclarece.
Questionado sobre o que mudou nos hábitos dos jovens, que há uns anos atrás adoravam banda desenhada e, actualmente, muitos já a substituíram pelas consolas, José Ruy acredita que “nos Açores a banda desenhada não está muito divulgada” havendo apenas “casos pontuais”, mas no continente afirma haver uma “gama muito boa” de jovens a trabalhar nesta área. Naturalmente que não é, reconhece, um trabalho “rentável”. E para uma pessoa com alguma experiencia e trabalhos publicados, há “sempre” um trabalho contínuo, mas para um jovem aparecer é “mais difícil”. Isto leva a que muitos elementos com valor derivem para a “publicidade” e outros tipos de trabalho.
O desenhador lembra ainda terem há 19 anos um grande “festival” de banda desenhada na Amadora, no qual aparecem “sempre valores novos e alguns realmente muito bons”. Afirma gostar de fazer as letras “manualmente”, por ser “diferente”, e utiliza o Powrpoint apenas como “apoio”. Caso contrário, diz chegar a um ponto em que já “nem sabe se continua a ter arte ou é a máquina que a faz”.Mas, por outro lado, tem dois colegas, José Pires e João Amaral, que fazem “tudo” no computador e são duas pessoas com “muito valor” com trabalhos realmente “muito bons”.

A seu ver, o computador é o “terminal dos jogos e afasta-os um pouco” do trabalho em que se utilizam as mãos. Os jovens começam a habituar-se a usar só as “pontas dos dedos” para teclar, explica, avançando ser uma questão de “modas”, porque também quando apareceu a televisão disseram que o cinema ia “acabar e que o livro iria desaparecer”. E actualmente, todos eles coexistem.
Quanto ao que poderá ser feito para melhorar os passatempos dos jovens, o desenhador avança que têm tentado “encaminhá-los” para o livro, que “abre todas as perspectivas”, de conhecimento, da agilidade e de olhar. A seguir ao texto, vem a imagem e através desta cria-se realmente uma “habituação” que deve ser utilizada, sem ser apenas por fotografia ou numa sequência de cinema.
Em termos de projectos, diz ter em mãos uma “nova edição dos Lusíadas passada para banda desenhada”, com tradução para língua mirandesa, a segunda língua do país. O filósofo Leonardo Coimbra e a história da cidade de Coimbra, são alguns dos muitos projectos que estão em estudo.
No que toca a hábitos de leitura, José Rui aconselha os açorianos a “lerem e a descobrirem depois se o livro lhes agrada”, ou não, pois sabe naturalmente que na literatura tanto há o bom, como o mau. “Tem que se ver o conteúdo e descobrir, não é dizer que o livro não agrada por ter uma capa muito escura, por exemplo”- explica.
É preciso ler muito, mas no papel, sublinha, pois ler no computador torna-se “pouco pensativo” e no papel volta-se a folha, há o “cheiro” da tinta e uma serie de influências que “atraiem” o leitor.
O primeiro dia do Workshop incidiu sobre “Histórias em Quadrinhos ou Banda Desenhada”; as origens da banda desenhada; o que não se deve fazer; a estrutura versátil das histórias em quadrinhos; guião e texto para legendas; a adaptação de um romance; planificação do texto original; a inspiração; proporções da figura humana e de animais e esquema da figura humana. No segundo dia, os alunos puderam aprender algo mais sobre documentação; arquivos; organização de um ficheiro; a pesquisa nos locais onde se desenrola a acção; o desenho do natural; como se recolhem elementos num museu; composição gráfica dos quadrinhos; linhas de radiação e os planos. O suspenso; a rotulação; os balões; a perspectiva e modelos vivos foram os assuntos do dia seguinte.
Os últimos dois dias desenvolveram temas como a utilização do modelo vivo no desenho de ilustração; desenho ao vivo, com modelo, na sala; a cor e sua aplicação nas pranchas; versões das histórias em quadrinhos para outras línguas e; versões em línguas completamente diferentes da nossa.


Raquel Moreira

Public in Terra Nostra, Outubro de 2008.

terça-feira, 30 de setembro de 2008

A qualidade está na "competição"


Hands on Aproach

Compor é "devolver ao mundo" o que se vê dele e não importa se a música é cantada em português ou em inglês. É simplesmente música e deve ser avaliada pela sua "qualidade". Além disso, a arte é algo "livre, é um processo autónomo e individual", de cuja individualidade vem o direito de "escolher" e devia-se parar com este "complexo, essa falsa questão e ouvir a música pela música"- ressalva, avançando não ter "nenhuma obrigação" para com a língua portuguesa de fazer música em português.
Quanto à nova lei que obriga as rádios a passarem música portuguesa, João Luís, guitarra baixo dos "Hands on Aproach", afirma que esta não é nada "favorável" aos músicos, que assim não precisam de se "esforçar" tanto para terem a sua música, "por mais medíocre que seja", a passar na rádio.

"My Wonder Moon", "Tão perto e tão longe"e "If you give up" (tema da banda sonora dos famosos "Morangos com Açúcar") são alguns temas de sucesso dos "Hands on Aproach", que actuaram recentemente em Ponta Delgada. O grupo adora a Região e espera voltar em breve a actuar num palco açoriano.
João Luís, guitarra baixo dos "Hands on Aproach", conta que a banda começou há perto de 12 anos e surgiu de um "convite" feito a Rui David, vocalista do grupo, para tocar na rádio ao vivo. Na altura, Rui juntou as pessoas que estavam perto dele, que eram músicos para, por "brincadeira", tocar na rádio.
"Ele também tinha alguns originais e isso foi um pouco um ponto de partida. Gostamos da experiência e de tocar uns com os outros"- esclarece, avançando ser algo "importante". Sim, pois já se conheciam, mas nunca tinham tocado juntos. Gostaram do resultado e decidiram continuar, fazendo o percurso "normal" de uma banda amadora e jovem, incluindo concursos. E, sublinha, as coisas foram acontecendo com "trabalho e dedicação", até que apareceu o primeiro contracto discográfico.
De uma maneira geral, João e o irmão (Sérgio) começaram desde "muito cedo" a gostar de música, chegando a ponto de fazerem "mímica com vassouras e tachos". Aliás, a música está muito "presente" na casa destes dois jovens, principalmente pela parte dos "pais" e talvez por isso já tivessem esse "instinto" para tocar. Quase naturalmente, enfatiza, a coisa aconteceu. Tiveram aulas de música muito novos, mas confessa que não se interessaram. Só passados mais uns anos e por iniciativa própria, é que pegaram numa guitarra e começaram a tocar. Depois, admite, foram "puxando" um pelo outro e acabaram por encontrar uma banda mais tarde.
Na sua opinião, para qualquer pessoa que crie um objecto de arte, seja musica ou pintura, a inspiração é sempre a "vivência da pessoa, o contacto com a vida e a interpretação que faz dessas experiências". Um artista é normalmente uma pessoa um pouco"solitária e introspectiva" e a composição artística é isso mesmo. Trata-se um pouco de "devolver ao mundo", o que se vê dele, segundo a "filtragem" e o ponto de vista de cada um.
Questionado sobre o porquê de cantar em inglês, o musico contrapõe e pergunta "porque não?". E mesmo sem querer desenvolver muito este tema, que considera "inconsequente", João avança que a arte é algo "livre, é um processo autónomo e individual", de cuja individualidade vem esse direito de "escolher" e de optar pela linguagem que se tem. "A Suécia continua a exportar bandas para o mundo inteiro a cantarem em inglês"- salienta, lembrando-se ainda dos Abba e dos Cardigans.
De uma vez por todas devia-se parar com este "complexo, essa falsa questão e ouvir a música pela música", ressalva, avançando não ter "nenhuma obrigação" para com a língua portuguesa de fazer música em português.
Diz terem como referências "todos os grandes clássicos" como Jeff Buckley, Bob Dylan, Leonard Cohen, Metallica ou John Coltrane. E como músicos, afirma estarem "constantemente" a ouvir musica, tanta que por vezes é lhes "difícil" dizer do que gostam.
"Hoje, para mim, o álbum dos "kassabian" pode ser o melhor álbum do mundo e o artista que me está a influenciar e, amanhã para o Sérgio será "Doll Party" ou "Tom Weights""- esclarece.
Para os "Hands on Aproach", a música é algo que está "sempre" a entrar e que estão sempre a consumir. Claro que, depois destas misturas todas, deste 'input' todo, admite, há de sair alguma coisa, as influências. Mas a seu ver nenhum músico pode dizer que foi influenciado directamente "apenas por um" determinado artista.
Falando nos álbuns do grupo, João lembra que o primeiro álbum, "Blown", foi editado em 1999, de onde saiu o "My Wonder Moon" e "Tão Perto e tão longe", temas que quem vai aos concertos da banda conhece. Depois editaram "Mouving Spirits", "Groovin' on Monster's Eye-balls". O último álbum do grupo, intitulado "10 Anos-Casino Figueira" (2007), foi gravado ao vivo no Casino da Figueira da Foz. Este "revê um pouco os álbuns anteriores" e faz um resumo e um balanço dos 10 anos de carreira dos "Hands on Aproach".
Todos os álbuns lhes deram um prazer "incrível" por razões diferentes pela altura em que foram feitos e pelas pessoas com quem trabalharam, por isso afirma ser "impossível escolher" qual consideram o melhor. "É como ter vários filhos, não há nenhum de que gostemos em particular, todos nos marcam"- compara, acrescentando mesmo assim ser o "primeiro", precisamente por ser o primeiro e por toda a "magia" de estarem finalmente a gravar um disco, o que o torna um bocado "enigmático".
Na sua opinião, "não é difícil" transpor a música portuguesa para fora do país, apenas falta alguma "coragem" à própria indústria para apoiar esse sector, porque tornar uma banda conhecida noutros países "custa muito dinheiro" e as pessoas se calhar não sabem disso. Investe-se muito e entra-se num mercado "aberto e dominado" pelas grandes editoras e promotoras. Não é algo que se faça só por querer e não havendo uma indústria em Portugal como acontece noutros países, lamenta, ainda é "mais" difícil.
"Felizmente", nos últimos tempos têm tido boas notícias em relação a isso e não é só World Music que Portugal exporta. "Já se ouve falar de David Fonseca nos Estados Unidos, dos "The Gift" em Madrid"- salienta, revelando ter a esperança de um dia terem também essa "oportunidade".
Quanto ao facto do mundo da música funcionar, ou não, por lobbies, João argumenta ser um pouco como "a expressão do Velho do Restelo", dizendo ser uma opinião "lavada e batida", a de que em Portugal funciona tudo por lobbies. O músico diz ainda querer acreditar que há músicos com "muito talento", que continuam a levar as bandas a vários locais, a passar na rádio e a dar concertos. E, sublinha, "não é por lobbies que se convence cinco mil pessoas a estarem num concerto" durante uma hora, pois por mais lobbies que alguém tenha feito para o músico estar em palco, no fim do concerto "se este não convenceu o publico, não há nada a fazer". Referindo-se ao próprio grupo e a outras bandas, João argumenta que não se fazem 12 anos de carreira com "amizades".
Quanto à nova lei que obriga as rádios a passarem música portuguesa, o músico afirma "não" concordar com esta decisão, pois a seu ver o "grande problema" está precisamente numa lei como esta. "Esta lei é o grande perigo, pois está a marginalizar e a estigmatizar, a pôr num pacote ou numa prateleira a música portuguesa"- ressalva, acrescentando que "não deveria haver música portuguesa ou inglesa, simplesmente música boa ou má". Importa é saber se determinada música tem, ou não, "qualidade" para passar na rádio.
E continua, afirmando não saber até que ponto esta lei é benéfica e "favorável" aos músicos portugueses. Em todo o lado, "o que traz a qualidade é precisamente a competição", o facto do músico ter de se "esforçar mais e mais e fazer cada vez melhor" para conseguir que a sua música passe na rádio. E quando há uma lei que "protege" o músico e que obriga a musica portuguesa a passar, por mais "medíocre" que seja, este já não se vai esforçar tanto.
"My Wonder Moon", relata, foi das primeiras músicas que Rui David compôs e se calhar é aquele tema que "representa e marca melhor" o início dos "Hands on Aproach". O que não significa que seja, hoje, a música que representa a banda, pois, lembra, já fizeram outras músicas que têm mais a ver com aquilo que o grupo é actualmente. Mas é, "sem dúvida", a música que "marcou" o início de carreira do grupo e que os apresentou ao mundo, logo é uma música "importante" para a banda.
A vinda aos Açores surgiu na sequência de um convite feito pelo ANIMA. Convite este que afirma terem aceite com "muito gosto", pois consideram os Açores um arquipélago "fantástico". Além disso, em qualquer oportunidade que têm de visitar a Região, diz serem recebidos de uma maneira "incrível" e o próprio local também os "fascina" bastante. "É uma oportunidade única"- acentua.
Em termos de projectos, João revela estar a trabalhar no próximo disco, que afirma estar "quase" acabado e que deverá ser lançado possivelmente em "inícios de 2009". Trata-se de um álbum mais "maduro" em relação aos anteriores e é o disco onde houve mais 'input' criativo de "todos" os elementos da banda. Sim, porque em álbuns anteriores, relata, foram mais Rui David, João a compor e, Sérgio que também teve sempre um 'input' muito "importante". Por outro lado, neste disco todos os músicos da banda e alguns convidados tiveram todos o seu "espaço" para porem em pratica as suas ideias, o que para considera uma "evolução" como banda e como projecto.
João aproveita ainda para dizer aos açorianos que espera que estes continuem" a "gostar da música da banda. E que os convites para visitarem os Açores continuem a surgir, pois fazem-no com o maior "prazer".

Biografia

Os “Hands on Aproach” foram a banda revelação da música portuguesa, em 1999. Originária de Setúbal, esta é formada por Rui David (vocalista), João Luís (guitarra baixo), Sérgio Mendes (guitarra) e João Coelho (bateria) e tornou-se mais conhecida com o tema “My Wonder Moon”.

O seu trajecto inicia-se em 1999, quando Rui David está a tocar com uns amigos numa praia do Algarve. Nesse momento, um animador de rádio aproxima-se e convida-o a tocar duas ou três músicas ao vivo. Aceitando de imediato, convida o irmão João Luis para tocar baixo e mais dois amigos para a guitarra e bateria.

Depois de alguns ensaios, apresentam-se ao vivo no auditório da Antena 3, para a primeira apresentação do grupo, num programa que mostrava o que havia de novo no panorama musical em Portugal.

Depois de tão inesperado sucesso, a banda decide dar continuidade ao projecto, iniciando o circuito habitual de demos e de contactos com editoras. Dão espectáculos um pouco por todo o lado até que, em Outubro de 1997, mais de um ano depois da apresentação na Antena 3, quando tocam ao vivo numa discoteca, um ‘manager’ decide ouvi-los com mais atenção. Deste interesse, resulta a gravação em estúdio de algumas músicas, o que lhes permite apresentarem um trabalho mais coeso e maduro às editoras. Consequentemente, assinam com a Universal/Polygram um contrato para dois discos.

O primeiro trabalho, “Blown”, editado em Março de 1999, é disco de prata à saída e vende mais de 38 mil exemplares, marca que deixa a banda à beira de uma estreia “platinada”. O primeiro single, My Wonder Moon”, fica no primeiro lugar do airplay nacional durante quase dois meses. Deste álbum, produzido por Darren Allison, que colaborou com Skunk Anansie, Spiritualized e Divine Comedy, entre outros, foram extraídos, “Silent Speech” e “Tão Perto e Tão Longe”, mais dois grandes singles que se tornam rapidamente em hinos obrigatórios de qualquer espectáculo da banda. Neste mesmo ano, tornam-se a banda revelação da música portuguesa e a sua digressão leva-os a fazer mais de 90 datas por todo o país.

Um ano depois, em Outubro de 2000, lançam o segundo trabalho, “Moving Spirits”, cujo primeiro single – “The Endless Road” - tem uma excelente carreira no airplay nacional. Após mais de um ano de digressão nacional, os HOA criam o seu site oficial, http://www.handsonapproach.pt/, ao mesmo tempo que apresentam, a 17 de Abril de 2002, no Musicais de Lisboa, um novo formato de espectáculo semi-acústico, muito mais intimista e próximo do público.

Em 2004, a banda prepara em estúdio o terceiro álbum de originais, “Groovin’On Monster Eye-balls”, trabalho, cujas composições começaram a ser pensadas e construídas durante a digressão de Moving Spirits. O grande sucesso desse cd conta com a participação da vocalista dos Wire Daisies, Treana Morris, que se torna fã do grupo a partir do momento em que conhece os dois primeiros álbuns e que, durante o processo de gravação de “Groovin’ on Monster’s Eye-balls”, tem oportunidade de ouvir e de se “apaixonar” pelo tema. A admiração é mútua e o convite do grupo à cantora inglesa, é imediatamente aceite.

Com o novo cd “10 Anos_ Casino Figueira” [acústico] editado em Setembro de 2007, a banda coloca mesmo “mãos à obra”, visto ser responsável por toda a gestão da imagem, desde o design das capas à produção de vídeo, às fotos oficiais e ao website.

Colaborando desde a primeira série da novela portuguesa “Morangos com Açúcar”, a relação continua e desta vez o tema escolhido é “Let´s Be In Love”, canção que conquista dezenas de novos fãs.

Como bónus, a banda inclui um dvd com a gravação vídeo do mesmo concerto, fotos que contam a sua história, “making of”, entrevista, clips… enfim uma peça para guardar em casa, de uma banda da qual não se pode passar ao lado.

Raquel Moreira

Public in Terra Nostra, Setembro de 2008.



"Trabalhar uma ideia"


Centro de Empreendedorismo

É imprescindível hoje em dia ter “conhecimentos” e actualizá-los, pois estes têm uma esperança de vida muito curta e são “perecíveis”. Para se ser empreendedor, não basta querer. Segundo Belmiro de Azevedo, presidente da SONAE, são necessários “treino, formação” e essencialmente “educação”, pois quem não a tiver não tem “competências” para ser empreendedor e trabalhar uma nova ideia.

“O conhecimento e a inovação são molas de desenvolvimento e a empresa é o albergue da inovação”- foram palavras de Avelino Meneses, Magnifico Reitor da Universidade dos Açores, na inauguração do Centro de Empreendedorismo da Universidade dos Açores, realizada em Ponta Delgada no início da semana. Cerimónia que contou ainda com a presença de Gualter Couto, presidente do Centro de Empreendedorismo e; de Duarte Ponte, secretário regional da Economia, além de ilustres convidados como o empresário Belmiro de Azevedo.
Segundo o reitor da Universidade, no passado a riqueza das nações dependia da capacidade de acesso a recursos naturais e a níveis de produção. Havia disponibilidade de mão-de-obra abundante e barata, muitos deles escravos, recorda. Actualmente, a chave do progresso é o conhecimento, onde assenta a prosperidade neste advento do séc. XXI.
O relativo atraso de Portugal reside num “défice” de conhecimento que importa “superar”. O atraso político e tecnológico é também consequência de uma atitude política e da acção dos agentes económicos, que “preferem o produto final em vez da produtividade”.
Deve haver uma grande “interacção” entre a universidade e as empresas, para que o conhecimento tenha “impacto” económico, que deverá assentar num patamar de “responsabilidade e cooperação”.
Importa “transformar os jovens em promotores de emprego, em vez de mendigos de emprego”- acentua, avançando que a universidade tem uma missão “cultural universalista”.
Gualter Couto, presidente do Centro de Empreendedorismo, classifica as instalações inauguradas como “excelentes”, para dar continuidade a uma “cooperação” entre a universidade e o mundo empresarial. Estas permitem também à universidade desenvolver a missão de aplicar as mais “avançadas práticas”.
Importa “reduzir” o risco e a incerteza, salienta, revelando que este ano até agora já forma realizados cinco cursos de empreendedorismo, o que totaliza 65 formandos. Estão previstos ainda antes do final do ano mais três cursos, o que perfaz um total de 180 formandos em 2008.
O investimento no Centro de Empreendedorismo foi, sublinha, de 120 mil euros e foi suportado na sua maioria pelo “Líder Mais”, um programa de iniciativa comunitária, e por sponsers como o BANIF, Millenium, EDA, BES e a Zoom Cabo TV. O presidente do Centro aproveitou ainda para salientar que este “não acarreta despesas fixas nem operacionais” à Universidade dos Açores.
“Conhecimento, Inovação, Empreendedorismo e Governância” foi o tema da conferência que se seguiu, proferida por Belmiro de Azevedo, presidente da SONAE e o maior exemplo de empreendedorismo a nível nacional.
Segundo Belmiro de Azevedo, o conhecimento é “educação, formação e treino”, mas é também um bem “perecível” e é cada vez mais “curta” a aprendizagem nas escolas.
O treino é fundamental e as pessoas têm de ter “vontade” de utilizar as novas tecnologias, que são “aceleradores” de conhecimento. A experiência, explica, consiste na aplicação na prática desse conhecimento e também deve ser “permanentemente” ajustada.
“Importa que os poderes públicos forcem as empresas à modernização”- argumenta, avançando haver por vezes mais “défice de conhecimentos nos gestores”, situação que convém evitar, para uma maior “coesão” social.
Além de se querer ser empreendedor, é preciso poder sê-lo, porque uma pessoa que não tenha “educação”, admite, não tem competências para o ser. Ser empreendedor implica ter vontade de “arriscar” e uma definição do estilo de vida. A pessoa deve saber de antemão se está disposta a trabalhar aos fins-de-semana e fora de horas. Esta situação, recorda, já gerou alguns conflitos na sociedade, quando os comerciantes “queriam descansar no fim-de-semana e os consumidores pretendiam as lojas abertas”. O facto é que o consumidor, o progresso económico é que decidem.
O empresário afirma ainda que inovar é “usar o conhecimento para encontrar algo novo” e implica “partilha” dessa sabedoria. No caso de um negocio falhar, por exemplo, muitas pessoas têm mais “medo” de perder prestígio, do que dinheiro.
“Os governantes têm tendência a desprezar o respeito pelo meio ambiente”- enfatiza.
Belmiro de Azevedo via anda mais longe ao afirmar que o Estado não tem “opinião pública, credibilidade, nem dinheiro para se impor”, mas faz leis e tem um poder que, a seu ver, “não” deveria ter, o de “regular”. A sua grande função é “fechar” este triângulo para que haja progresso económico.
A produtividade, por sua vez resulta da “eficácia” do trabalho e da produtividade.
O segredo para a crise está na “poupança”, por parte do Estado, das empresas e dos cidadãos.
Duarte Ponte, secretário regional da pasta da Economia, começou por lembrar que se assiste na primeira década do século XXI, a uma transição “acelerada” para a economia do conhecimento e da informação, ao fim da energia barata proveniente dos combustíveis fósseis e à importância cada vez maior das “mudanças climáticas e das questões ambientais”. E nos países ditos desenvolvidos surgem dificuldades acrescidas na manutenção do Estado Providência, em parte devido ao “aumento da esperança de vida e da diminuição das taxas de natalidade”.
O aumento da população mundial coloca “problemas crescentes” no abastecimento de bens essenciais, por isso há uma “forte” pressão nas fronteiras da Europa. Os emigrantes de países menos desenvolvidos, como o Norte de África procuram a cidadania europeia, para trabalharem e terem “melhores” níveis de vida. Nas economias emergentes os ritmos de crescimento continuam “elevados”. Por exemplo, nos últimos 25 anos, o produto interno bruto (PIB) da China cresceu a um ritmo de “9.4% por ano”, num país já considerado a 4ª Economia do Mundo, imediatamente abaixo dos Estados Unidos, do Japão e da Alemanha. Isto, apesar de ter um PIB ‘per capita’ inferior a “metade” de Portugal.
Em 2007, a China apresentou uma taxa de empreendedores em estágio inicial de “16,4% “, o que correspondeu a cerca de “200 milhões” de potenciais homens de negócio.

Na União Europeia estas taxas são muito menores, há cada vez menos “estabilidade” nas empresas, a nível de empregos e a economia encontra-se numa fase de “estagnação”. A crise do “suprime” e de diversas instituições financeiras que atingiu os Estados Unidos começa a estender-se à Europa e o aumento do preço das matérias-primas, bem como a “escalada” do preço do petróleo têm provocado “abalos sucessivos” nas diversas economias do mundo ocidental. E as mudanças de paradigma que estão a ocorrer, têm “fortes” implicações no futuro profissional dos jovens que se formam actualmente.

De toda esta realidade, surge a necessidade imperiosa de adaptação das universidades e escolas de formação profissional a estes novos tempos. Resta saber, se os jovens estão preparados para estas mudanças.
As universidades são uma “pedra angular” no sistema de ensino e da investigação, por isso têm um papel “importante” nestas mudanças.

No actual contexto de crescente globalização, existem “dois factores” preponderantes na criação de riqueza. A “inovação” que é capaz de “gerar diferenças competitivas” e acrescer valor à produção, melhorando os níveis de produtividade e, o “empreendedorismo”, uma autêntica “força motriz” capaz de mover os factores de competitividade associados à inovação, à tecnologia, à qualidade, ao marketing, à informação e à organização.

A capacidade e a vontade de assumir riscos variam de indivíduo para indivíduo, mas a oportunidade, a necessidade, as condições de financiamento e a formação que se apresentam ao indivíduo são “determinantes”.
Não é por acaso que a maior parte dos empreendedores provem de famílias que já têm a sua própria empresa. Outras vezes, o empreendedor surge no seio de uma empresa que abandona para criar novos negócios. Sim, porque as empresas são as principais “escolas” do empreendedorismo.

Muitas vezes, é criado um novo negócio com base apenas numa nova ideia, em novas condições de mercado e numa nova tecnologia, mas a oportunidade desempenha um papel fulcral. Claro que também é necessário, reconhece, ter “condições financeiras” para o fazer e aí intervêm as instituições bancárias e os sistemas de incentivos.
“A necessidade aguça o engenho”, mas o jovem também se apercebe de que uma formação profissional não é nenhuma “garantia” de entrada no mercado de trabalho e muitas vezes o emprego conseguido não lhe concede a remuneração pretendida.
O empreendedorismo é “a capacidade dos indivíduos de colocarem as suas ideias em acção”, o que comporta criatividade, inovação e assunção de riscos, bem como a capacidade de programar e de gerir projectos com vista a “alcançar” objectivos. Esta competência torna os trabalhadores “conscientes” do contexto do seu trabalho e aptos a aproveitarem as oportunidades, servindo de base para aquisição de outras aptidões mais específicas e dos conhecimentos de que os empresários necessitam.
“A Universidade dos Açores ao inaugurar este Centro de Empreendedorismo está a dar um passo importante para também nesta área assumir um papel relevante nos Açores”-acentua.
O Estado e as empresas estão “negativos”, lamenta, acrescentando que nos cidadãos a taxa é “muito baixa”, de apenas 6 ou7%. “Poupa-se muito pouco e torna-se a ir buscar dinheiro à banca estrangeira e de uma maneira, que considera ser “perigosa”.
Não se pode emprestar dinheiro de uma instituição, que por sua vez já foi emprestado por outras, alerta, avançando que foi isso que aconteceu.
E o pior é que segundo o empresário, Portugal “ainda” não notou muito os efeitos da crise, pois no dia em que não se paguem “prestações”, sublinha, a banca tem outro sistema.


Raquel Moreira

Public in Terra Nostra, Setembro de 2008.